Nasci em Campos do Jordão nos anos 70 e, como quase todo jordanense da minha geração, tenho memórias nítidas de andar de bondinho. O trajeto do Capivari até Abernéssia era, para muitos de nós, o caminho para a escola, o trabalho, o encontro com amigos. A Estrada de Ferro Campos do Jordão fazia parte da nossa rotina. E era mais do que uma atração: era um serviço.
Foto: Sergio Biaggionni
Ao ler as recentes declarações do presidente da Companhia Paulista de Parcerias, Edgard Benozatti, ao jornal O Estado de São Paulo sobre concessão da ferrovia, senti um misto de entusiasmo e lamento. Entusiasmo por ver o patrimônio histórico sendo recuperado, o turismo ganhando força, e a promessa de R$ 400 milhões em investimentos. Mas lamento ao perceber, com clareza, que a possibilidade de retomarmos o uso cotidiano da EFCJ como transporte coletivo foi oficialmente descartada.
Disse Benozatti: “Haverá também um serviço parador que os usuários podem usar, mas mesmo com as melhorias que vamos fazer, é difícil competir com outros meios de transporte de massa, como os ônibus urbanos.” Pronto. Está dito. A nossa ferrovia será, definitivamente, uma atração turística — e não mais uma opção de mobilidade para quem mora aqui.
É uma escolha. E como toda escolha, tem consequências.
Campos do Jordão é uma cidade que vive em constante dualidade: somos destino de turistas do mundo todo, mas também somos cidade de gente comum, com rotina, com compromissos, com deslocamentos diários. E enquanto o turismo se estrutura — com razão e necessidade —, a vida do morador, muitas vezes, segue sem os mesmos investimentos.
A recuperação da linha entre Campos e Pindamonhangaba é maravilhosa. Que a Maria Fumaça volte a apitar, que os trilhos voltem a brilhar. Mas não podemos fingir que não há uma perda aí: a perda simbólica de um transporte que um dia foi nosso, do povo, da cidade. E que agora será voltado quase exclusivamente aos visitantes.
Não se trata de nostalgia apenas. Trata-se de pensar uma cidade integrada, onde o desenvolvimento turístico caminhe ao lado da qualidade de vida de quem vive aqui o ano inteiro. A EFCJ poderia ser esse elo — e talvez ainda possa, se houver espaço para discussões futuras que nos incluam de verdade.
Por ora, fica a constatação: nossa ferrovia está nos trilhos do progresso turístico. Mas, ao que tudo indica, desceu de vez na estação da utilidade popular.
Ricardo M. S. Gonçalves
Fundador do Guiacampos.com e um dos
apaixonados por Campos do Jordão


