A gente escreve aqui, para o Guiacampos.com, do brilhante jornalista Ricardo Gonçalves, que é amigo do Carlos, gerente do restaurante onde toca nossa professora de piano, Fernanda Torres, cujo companheiro, nosso querido amigo Marcelo, é primo do Mané, o rapaz que fez nossa mudança do condomínio onde trabalha o Rubens — que é primo do João, que já fez umas corridas de Uber com a gente — e também o Jorge, sobrinho da Dirce, essa mulher extraordinária que dá uma super força para a gente aqui em casa.
Vindos de cidades grandes — São Paulo e Belo Horizonte —, para nós essas “coincidências” são sempre uma surpresa muito divertida conforme vamos descobrindo as conexões entre as pessoas. Algo incomum, para não dizer raríssimo, em grandes metrópoles.
Desde que nos mudamos para cá, começamos a reparar como Campos do Jordão, embora seja uma cidade turística, com idas e vindas de pessoas de diversos lugares, muito movimento, trânsito e lotação nas altas temporadas, não deixa de ser uma cidade interiorana, que reencontra seu próprio ritmo assim que os carros e ônibus de turismo descem a serra.
Morando aqui, reparamos como o tempo e o funcionamento da cidade destoam profundamente daquilo a que passamos a vida inteira nos acostumando em cidades grandes. Já nos primeiros contatos com os jordanenses, fomos sendo atravessados por elementos novos e inesperados — e foi preciso exercitar um olhar mais atento, quase reaprender a enxergar, para começar a nos familiarizar com um lugar de dimensões menores e corações enormes.
Um exemplo disso foi a nossa dificuldade de não sair de casa apreensivos, escondendo celulares e carteiras. Mente e corpo programados para sentir medo, tomando medidas protetivas contra a habitual violência. Ao chegar aqui, trouxemos essa bagagem. Foi no contato com os moradores, comentando sobre nossa constante apreensão, que começamos a ouvir: “Podem ficar sossegados! Aqui é tranquilo. Ninguém mexe em nada de ninguém. Isso é muito raro”. Para nós, um feliz espanto.
Temos recolhido de nossas próprias experiências e de conversas com amigos e pessoas que fazem parte do nosso cotidiano o que significa morar numa cidade “pequena”. Colocamos entre aspas porque, para quem mora num município com menos de 5 mil habitantes, Campos pode parecer grande e agitada, é claro. E tomamos isso em consideração para pensar sobre as sensações experimentadas por cada um. Reunimos aqui algumas dessas percepções com as quais os jordanenses possivelmente podem se identificar.
“Anonimato? O que é isso, é de comer?”
Numa cidade onde todo mundo meio que conhece todo mundo, é difícil passar completamente despercebido. Lugares com menos gente têm essa particularidade: o anonimato praticamente não existe. As pessoas sabem quem é você, onde estuda ou trabalha, quem são seus pais. Há uma espécie de moral coletiva, uma vigilância mútua, que tende a inibir comportamentos vistos como “fora da curva” em relação ao que a comunidade considera normal. Com isso, muitos acabam reprimindo aspectos de si que poderiam entrar em conflito com os valores locais. Essas “transgressões” costumam ter consequências concretas: isolamento, desvalorização pública — ou, em versões mais leves (mas ainda assim incômodas), as famosas fofocas. “Sabe o Ciclano, menina? Cê não vai acreditar…”. É tão comum que até pega mal quando alguém se recusa a participar dessa rede de compartilhamento da vida alheia — porque isso, no fundo, é parte de um ritual social.
Mas o avesso também existe. Em cidades pequenas, certos assuntos se transformam em pactos de silêncio. O clássico “todo mundo sabe, mas ninguém fala”. Tabus, histórias traumáticas ou episódios difíceis vividos coletivamente acabam sustentando esse silêncio compartilhado. Evita-se tocar em temas constrangedores, tragédias, coisas que ninguém quer lembrar — como uma forma de proteção da comunidade consigo mesma.
Pertencimentos e identificações
Não ter muita privacidade pode ser difícil, mas nem sempre isso é algo ruim. Morar num lugar menor e ser conhecido por todos traz um sentimento único de apoio, solidariedade e amparo. Ter uma rede tão próxima e íntima torna muito mais fácil para as pessoas se sentirem acolhidas, pois, ao contrário das grandes cidades marcadas pelo individualismo (onde é comum frequentar o mesmo ambiente por anos sem sequer trocar um bom dia!), a colaboração entre as pessoas é mais estimulada — e, quase sempre, recompensada. As pessoas tendem a se ajudar, e o favor ofertado, eventualmente, é retribuído. Assim, essa rede de apoio que ajuda a atravessar as intempéries da vida vai sendo tecida.
Sabemos que não há nada mais humano do que o desejo de pertencer. Poder construir e usufruir dessa rede de apoio é importante justamente porque cidades menores apresentam um número mais limitado de grupos sociais dos quais podemos fazer parte. E, como seres sociais que somos, é difícil não querer pertencer a comunidades com as quais nos identifiquemos. Quando ficamos de fora, experimentamos um sentimento de exclusão. Além de criarmos laços por identificação, também precisamos manter nossa presença nesses grupos para que o pertencimento se sustente. Pode ser na escola, na igreja, na vizinhança, por meio de um hobby ou de interesses em comum: os grupos existem — e precisamos deles.
E por falar em identificações… não dá para não comentar sobre as identificações forçadas com as quais algumas pessoas precisam lidar ao morar numa cidade menor. Pertencer à “família Tal”, ser “filho de Fulano”, trabalhar no mesmo negócio dos pais… Às vezes, essas marcas vêm antes mesmo da pessoa poder decidir por si. Ela nasce, e isso já está dado, já faz parte da sua história. Pode ser um sobrenome, um parentesco, uma trajetória ou a profissão da família: essa herança, muitas vezes, pode ser um ponto forte — ou uma sina indesejada que vai acompanhá-la enquanto viver neste lugar. Construir uma identidade própria, separada desse legado, pode ser desafiador.
O desafio está justamente em entender que, na tentativa de construir uma identidade própria, existe um certo mal-estar. Afinal, em territórios pequenos, onde as histórias, atividades e oportunidades podem ser muito semelhantes, querer ser diferente gera uma tensão. Nesse contexto, surgem tentativas de diferenciação a partir de pequenas, mas significativas diferenças sutis — como questões estéticas, ideológicas, econômicas ou de performance — que, apesar de pequenas, ganham enorme importância e podem se tornar fontes de segregação, rivalidades ou invejas inconscientes.
Cidade pequena, grandes nomes
Ser alguém com influência e destaque numa cidade grande é uma tarefa difícil. Já numa cidade com cerca de 47 mil habitantes, isso pode ser bem mais fácil. Prefeitos, comerciantes de grandes lojas, professores das escolas onde todo mundo estuda, os médicos que atendem a comunidade… todas essas pessoas acabam se tornando figuras muito mais reconhecidas e notórias na cidade. Seus feitos, trabalhos e impactos entram para a história local e, às vezes, atravessam gerações. A perda dessas pessoas também costuma ser mais sentida, mais vivida por todos. Cada um, em maior ou menor escala, faz parte de uma engrenagem de funcionamento da cidade — e ninguém parte sem deixar algum tipo de marca que, de algum jeito, é percebida.
Quando o tempo escorre devagar
A possibilidade de sentir e perceber o impacto das coisas também revela uma característica marcante das cidades pequenas: a sua relação com o tempo. Na alta temporada, Campos parece experimentar uma amostra do que é viver em uma cidade cheia e caótica. Contudo, na maior parte do ano o tempo aqui é vivido com mais calma e inteireza. Ouvimos muito, quando chegamos, que “Campos é um sossego!” — e, de fato, com o passar do meses, fomos confirmando essa verdade. Não faz sentido trabalhar loucamente, correr de uma obrigação para outra, encaixar quinhentas atividades ao mesmo tempo… Uma das cenas cotidianas mais bonitas que já presenciamos na cidade é ver, à tarde, pessoas deitadas à sombra das árvores na praça Pinho Bravo — cochilando, ouvindo música ou namorando. Viver, aqui tem a ver com viver com tempo. A aceleração típica das grandes cidades, onde tudo o que se faz é absolutamente cronometrado, não tem vez aqui.
Raízes e asas
Nas conversas com amigos, ouvimos frequentemente relatos ambíguos sobre a cidade e suas proporções reduzidas. Para muitos, Campos do Jordão é o lugar onde nasceram, cresceram e criaram seus filhos, e o desejo é passar sempre a vida aqui, cercados pela familiaridade e o conforto de um ambiente conhecido. O sossego, a segurança e a sensação de pertencimento que construíram ao longo de suas vidas são inseparáveis desse lugar. Ir embora, para essas pessoas, significaria se colocar em um desconforto desnecessário.
Por outro lado, há quem sinta o impulso de partir: o desejo de explorar, de conhecer novos lugares, ter mais oportunidades e, talvez, “abrir a cabeça” para o mundo. No entanto, esse processo de separação pode ser doloroso. A perda de identidade, o sentimento de abandonar os entes queridos, a impressão de estar traindo uma tradição ou sendo ingrato com o que foi recebido aqui… São dilemas que marcam o processo. Ainda assim, a consciência de que uma cidade pequena é apenas um fragmento do mundo traz a promessa de novos horizontes. Mas, ao mesmo tempo, surgem as dúvidas: “Será que lá fora tudo vai dar certo? Vou me acostumar? O que vou perder ao sair? E se me arrepender?”. A cidade pequena carrega uma fantasia de totalidade: “Aqui nos conhecemos, aqui nos bastamos”. E essa ideia pode criar um grande conflito em quem pensa em ir embora. Ainda mais aqui, em Campos do Jordão, uma cidade que tem atributos muito especiais que a tornam realmente única no país. Talvez esse dilema se torne mais leve quando existe o apoio de quem fica, uma promessa tácita de que, independentemente de onde a vida leve, esse lugar será sempre um refúgio — um lugar para retornar e sempre se sentir pertencente.
O dilema, entretanto, não se restringe apenas àqueles que nasceram aqui e se perguntam se devem ficar ou partir. Aqueles que chegam de fora, que escolhem Campos como moradia, vivenciam um processo de adaptação. Durante um bom tempo, carregam a marca de “serem de fora”. O sentimento de diferença e o processo de integração com o ritmo local (de se ajustar às dinâmicas e aos fluxos sociais) duram algum tempo. A aceitação é possível — e mais fácil, graças à receptividade doce do jordanense — , mas sempre permanece uma marca de estrangeirismo, seja pelo sotaque, pelas diferenças culturais, pelas próprias formas de pensar ou, simplesmente, por não ter nascido e crescido aqui. Nós, por exemplo, mesmo após um ano morando na cidade, ainda ouvimos um “bom passeio!” em inúmeros lugares por onde vamos. Algo em nós comunica esse estrangeirismo, mas nos sentimos mais “misturados” quando, sem perceber, falamos o sotaque jordanense ou começamos a ser reconhecidos como quem realmente vive aqui de tanto frequentarmos algum lugar. Esse é o desafio de quem deixa sua cidade natal para se estabelecer em um lugar novo: fazer com que os laços frutifiquem na esperança de criar raízes.
Campos do Jordão é uma montanha de riquezas que convida à contemplação, provoca inúmeros sentimentos e, se estiver atento(a), ela te oferece muitas histórias e motivos de reflexão todos os dias. Aqui, ninguém permanece indiferente — moradores, turistas e recém-chegados, todos nós, de alguma forma, somos afetados pela cidade.
A cidade era pequena, e o mundo parecia inteiro ali. Tínhamos tempo para tudo. […] A vida parecia mais funda.” — Guimarães Rosa

Erika Faria ([email protected]) e
Cezar Perini ([email protected])
são psicólogos e psicanalistas,
moradores de Campos do Jordão.


