Quando a oportunidade fala mais alto que o dever. | Por: Ricardo Gonçalves

Há muito tempo, especialistas, educadores, psicólogos e famílias alertam sobre os riscos que crianças e adolescentes enfrentam nas redes sociais. De exposição excessiva a conteúdos nocivos, passando por casos graves de abuso e violência digital, não faltam histórias — muitas delas trágicas — para justificar a urgência de uma regulamentação séria e eficaz.

E o que fez a classe política nesse tempo todo? Reuniões, debates, discursos… e nada de concreto. A prioridade sempre foi baixa. O problema estava ali, bem na frente de todos, mas o movimento para resolver parecia não sair da gaveta.

Até que, de repente, um vídeo de 50 minutos do influenciador digital Felca, com denúncias e acusações pesadas, toma conta das redes e da imprensa. Em poucas horas, o assunto vira manchete e pauta nacional. E como num passe de mágica, aqueles mesmos políticos que antes evitavam o tema ou até se posicionavam contra a regulamentação das redes sociais surgem agora inflamados, defendendo mudanças e prometendo ação imediata.

É aqui que entra o chamado marketing de oportunidade.
Trata-se de uma estratégia (e, no caso, um oportunismo político) onde a ação ou discurso é moldado para aproveitar um momento de grande repercussão, visando ganho de visibilidade, aprovação popular ou capital político. Não importa se o problema é antigo; o importante é aparecer no holofote certo, na hora certa, e colher os frutos da comoção pública.

Mas não podemos esquecer: a regulamentação das redes sociais é urgente e inegociável. Não se trata de censura, mas de criar regras claras para proteger quem é mais vulnerável — especialmente crianças e adolescentes — e responsabilizar plataformas que permitem abusos, discursos de ódio e crimes digitais. Assim como já existe código de trânsito para carros e normas sanitárias para restaurantes, o ambiente virtual também precisa de leis que definam limites e punam excessos. A liberdade de expressão não pode ser usada como escudo para a impunidade.

O problema é que essa lógica de agir só quando há holofotes transforma tragédias e temas sérios em trampolins de imagem. Ao invés de legislar com serenidade e planejamento, a ação só vem quando há potencial para render manchetes e engajamento. O interesse deixa de ser a proteção da sociedade e passa a ser o próprio jogo político.

No fim das contas, não estamos diante de um despertar ético tardio, mas de um movimento calculado. E talvez, quando essa onda de repercussão passar, muitos voltem ao silêncio confortável de antes, deixando que a próxima oportunidade — e não o dever — dite o ritmo de suas ações.

Ricardo M. S. Gonçalves
Fundador do  Guiacampos.com e um dos
apaixonados por Campos do Jordão

 

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