Feliz aniversário, Pedro Paulo Filho! Por: Benilson Toniolo

Quatro de setembro: se vivo estivesse, Pedro Paulo Filho, o nosso historiador maior, teria completado 88 anos. 

Todos os que o conhecemos sentimos muita saudade do Pedrinho. Ele faz muita falta ao nosso convívio. Sua inteligência, sua perspicácia, sua capacidade de memória, sua incrível oratória, sua liderança social, cultural e política, seu gênio criativo e seus  conhecimentos históricos fundamentados e consistentes marcaram época em nossa cidade. 

Não foi ele o primeiro a escrever sobre a História de Campos do Jordão, é bom que se diga. Antes, outros autores já haviam se debruçado sobre a importância de retratar o tema e assim o fizeram, com destaque para  Arakaki Masakazu, Cecilia e Shisuto Murayama, João de Sá, Balthazar de Godoy Moreira, Vico da Matta e Condelac Chaves de Andrade – sem falar nos cronistas que escreviam nos jornais, não menos importantes: Orestes Mario Donato, Theodoro e Joaquim Corrêa Cintra, Adolfo Torresin, Jacques Perroy, entre outros.

A grande contribuição de Pedrinho, entretanto, foi a de reunir tudo o que já tinha sido escrito sobre a cidade até então e que se encontrava disperso, e a partir desse material passar a construir uma historiografia minimamente organizada do ponto de vista cronológico – que foi desaguar no livro “História de Campos do Jordão”, que ele publicou pela Editora Santuário e que se constitui na principal obra sobre o assunto. Uma leitura fundamental.

Além dessa “organização oficial”, Pedrinho também se notabilizou pelos livros que escreveu sobre a nossa cidade. Ele falou de tudo: a imigração japonesa, a Estrada de Ferro, as cerejeiras, as lendas locais, personagens históricos, a política, fez poemas… Trata-se de um trabalho hercúleo de pesquisa e investigação ao qual ele dedicou grande parte de sua vida, e que deixou como um legado incontestável e incomparável de amor pela Montanha Magnífica, como ele mesmo chamava. 

Pedro Paulo Filho, advogado, jornalista, memorialista, poeta, cronista e político, não tinha formação específica em História, o que pode fazer com que algumas pessoas ainda resistam em classificá-lo como “historiador”. A questão, penso eu, é que diante de uma obra tão volumosa e uma contribuição tão decisiva para o conhecimento do nosso passado, da compreensão do nosso presente (que difícil!) e da tentativa de construção do nosso futuro, o fato de não ter se sentado por quatro anos em uma instituição especializada acaba por tornar-se quase irrelevante. 

Para muitos, trata-se de nosso principal historiador. Para a maioria, um homem público probo e de contribuição fundamental para o entendimento da nossa trajetória enquanto sociedade. Para a cidade, um apaixonado incondicional e confesso. Um dos homens que mais amou e defendeu esta Campos do Jordão que a todos recebe e abençoa.

Talvez seja o momento, como dizem alguns colegas, de começar a revisitar a obra de Pedrinho com olhos “menos apaixonados”, por assim dizer, e mais “equilibrados” – com maior neutralidade e imparcialidade, que permitam uma visão mais ampla, diversificada e crítica. Pode ser, e isso também é importante. 

Também por isso, pelo caráter de atemporalidade que a caracteriza, sua obra se reveste de imortalidade e inquestionável importância sobre o “ser jordanense”, que vem a se constituir no retrato mais completo de nossa identidade.

A data de sua morte ocorreu, por uma incrível coincidência, no dia em que a Estrada de Ferro Campos do Jordão, onde ele atuou por quatro décadas como advogado, celebrou seu primeiro centenário: 15 de novembro de 2014. Foi um dia estranho, em que a alegria pela celebração dos 100 anos da ferrovia se mesclou à consternação geral pela perda do nosso grande intelectual. Até no dia de se despedir, o Pedrinho se fez histórico – como se fosse preciso fazer-se histórico um homem que foi, em vida, a personificação de nossa própria História.

Ainda há muito a se falar sobre sua imensa obra, e muito ainda a aprender e refletir. É dever de todo jordanense, nascido ou adotado, ler e conhecer a obra de Pedro Paulo Filho.

Posso estar equivocado, mas não vi nenhuma referência da municipalidade à passagem dessa data tão importante em nosso calendário cultural. Quatro de setembro devia ser feriado municipal, dia dedicado à reflexão e leitura de sua obra, com direito a seminários e discussões nas escolas, nas bibliotecas, nos cafés, nas livrarias, nos teatros… mas apenas a Pia Artesanal organizou uma programação com a participação de escritores locais, que chamou muito adequadamente de “Semana Pedro Paulo Filho”.

Em determinado momento de minha passagem pela Secretaria Municipal de Cultura, iniciei um estudo sobre o tombamento da obra de Pedrinho como patrimônio imaterial de Campos do Jordão – iniciativa que não avançou pela falta de adesão e interesse de alguns órgãos e colegiados. Faz parte. Cada coisa na sua hora, não é verdade? A ideia, em si, não morreu. Está aí, para quem quiser construir junto.

Feliz aniversário, nosso estimado Pedrinho, presença eterna em nossos corações, em nossa Cultura e em nossa memória!

Em tempo: meu agradecimento ao numeroso público que, generosa e carinhosamente, compareceu ao lançamento de “Depois do Último Dia”, no último sábado, na Milili. Obrigado, gente. Espero que gostem da leitura.

 

Benilson Toniolo, professor, escritor e historiador, foi Secretário Municipal de Valorização da Cultura de Campos do Jordão (2013-2024) e atua como consultor do Sebrae para efetivação de políticas públicas de Cultura em doze municípios brasileiros. Membro de diversas Academias de Letras e outras entidades culturais, escreve artigos sobre Política, História e Cultura.

 

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