Airbnb e o turismo de Campos do Jordão: por que precisamos de diálogo, não ataques! Por: Ricardo M. S. Gonçalves

A declaração do secretário de Turismo de Campos do Jordão, classificando o Airbnb como “um câncer”, ainda ecoa com força na cidade. Como alguém que acompanha diariamente o turismo, não posso deixar de registrar minha visão sobre o tema — e, sobretudo, a minha indignação diante da fala e do silêncio que se seguiu.

Os benefícios da hospedagem compartilhada

A hospedagem compartilhada não é um inimigo, muito pelo contrário: é uma aliada poderosa do turismo moderno. Ela traz vantagens claras tanto para o hóspede quanto para a cidade. Para quem viaja, é a chance de ter experiências autênticas, conhecer bairros fora do circuito turístico tradicional e encontrar preços mais acessíveis.

Para os municípios, os benefícios são ainda mais concretos: o visitante que se hospeda em casas e apartamentos muitas vezes faz compras na padaria da esquina, janta na pizzaria do bairro, compra vinho na mercearia local e abastece o carro no posto da vila. É o dinheiro circulando diretamente nos pequenos negócios da cidade, movimentando o comércio local de forma descentralizada.

Exemplos não faltam. Quantas vezes uma família hospedada em uma casa de temporada não descobriu um restaurante fora do “circuito Capivari”? Ou quantos visitantes não acabam comprando queijos, chocolates, artesanato e lembranças de produtores da região porque estão hospedados em bairros onde a vida da cidade acontece de verdade? Esse modelo democratiza o turismo e distribui renda de forma mais justa.

A questão da regulamentação

É evidente que precisamos de regras claras, principalmente para garantir segurança e justiça tributária. Mas é preciso ser honesto: a locação por temporada já é uma atividade regulada pela Lei do Inquilinato (Lei nº 8.245/1991), protegida pelo direito constitucional de propriedade. Ou seja, o modelo não opera na ilegalidade, como se costuma insinuar.

A partir dessa base legal, é possível e desejável avançar em regulamentações específicas que tragam ainda mais segurança para anfitriões, hóspedes e municípios. Mas não há motivo para demonizar um setor que tem gerado oportunidades, renda e fortalecido o turismo.

O lamento e o silêncio

Lamento profundamente as palavras do secretário de Turismo, que também é hoteleiro e dono de restaurante, ao chamar o Airbnb de “câncer”. A fala foi dura, preconceituosa e desrespeitosa com milhares de jordanenses que encontraram na hospedagem compartilhada uma forma digna de complementar renda e muitas vezes a principal fonte de renda.

Mais grave, no entanto, é o silêncio ensurdecedor que se seguiu. Não entendo como o secretário ainda não se retratou publicamente. E pior: não entendo a omissão da Prefeitura diante de uma declaração tão ofensiva do seu secretário de turismo. O turismo é a espinha dorsal da economia jordanense e exige equilíbrio, diálogo e respeito — não ataques gratuitos que dividem a cidade.

A hospedagem compartilhada é uma realidade global e irreversível. Campos do Jordão precisa aprender a dialogar com ela, não a combatê-la com adjetivos pejorativos. O futuro do turismo está na diversidade de opções, na integração entre modelos e no reconhecimento de que todos — hotéis, pousadas, casas de temporada, restaurantes, pequenos comerciantes — são parte da mesma engrenagem.

O silêncio das autoridades só aumenta a sensação de despreparo diante de um tema tão importante. Cabe à sociedade, aos empresários e aos anfitriões mostrar que a economia do compartilhamento não é um “câncer”, mas sim uma oportunidade viva de manter Campos do Jordão vibrante, acolhedora e em sintonia com o mundo.

Ricardo M. S. Gonçalves
Fundador do  Guiacampos.com e um dos
apaixonados por Campos do Jordão

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