Metodistas de Campos do Jordão: 83 anos de vida – E vida em abundancia. Por: Benilson Toniolo

O ano de 1942 foi de grande movimentação em todo o mundo.

Em plena ditadura do Estado Novo, Getúlio Vargas mudava de lado durante a 2º Guerra Mundial graças a um acordo bilateral com os Estados Unidos e passava para o lado dos Aliados, deixando de apoiar o Eixo liderado por Alemanha, Itália e Japão.

O estado de S. Paulo era governado pelo interventor Adhemar de Barros, figura frequente em sua casa, no Morro do Elefante, na companhia da esposa, a primeira dama Leonor Mendes de Barros.
Campos do Jordão vivia dias movimentados, no auge da chamada Prefeitura Sanitária, quando servia de destino para os brasileiros acometidos de doenças pulmonares – muitos deles, desenganados, conseguiram recuperar a saúde e aqui permaneceram.

Dividindo o município em três setores por determinação de Adhemar – zona sanatorial, zona residencial e zona turística -, o médico-prefeito nomeado Lourival Francisco dos Santos investia na liberação das obras dos conhecidos hotéis-cassino, como eram chamados o Toriba, o Grande Hotel, o Vila Inglesa e o Rancho Alegre – além do Tênis Clube e outros estabelecimentos onde se jogava, muito e a dinheiro. Muito dinheiro.

Terras eram desapropriadas para construção do Palácio Boa Vista. Erguia-se a Igreja de São Benedito, em terreno doado pelo embaixador Macedo Soares e no lugar da antiga capela. Construiu-se o Cine Gloria, escolas surgiam, sanatórios idem (como o Sírio), a mão-de-obra japonesa fazia de Campos do Jordão o maior produtor nacional de cenouras. As obras da Santa Casa e da Maternidade seguiam em ritmo acelerado. Os bondes da Estrada de Ferro subiam e desciam a serra o dia inteiro, trazendo não somente doentes, mas também seus familiares, operários, enfermeiros, médicos, cargas para os sanatórios e material de construção para as muitas edificações que a cada dia surgiam.

A cidade crescia a olhos vistos, em um ritmo que trazia progresso, desenvolvimento e riqueza – sempre tendo dois pilares: a tuberculose e o jogo.

O ano de 1942 marcou também a despedida de três expedicionários jordanenses para lutar na 2º Guerra, compondo a Força Expedicionária Brasileira nos campos de batalha da Itália. Dois voltaram. Um deles, Antonio Bento de Abreu, pereceria em Montese, na Emilia-Romagna, em combate.

Entre os inúmeros enfermos que se aglomeravam em pensões e sanatórios, estava Aristides Sarmento, da Igreja Presbiteriana de Campinas, que chegara à cidade para tratamento na companhia da esposa Maria e seus filhos Saulo, Emy e Raquel. Outro presbiterano, o pastor Alfredo Amaral, hospedou-se na Pensão Sans-Souci, onde conheceria um paciente que, pela segunda vez, hospedava-se no local para tratar do pulmão: Natalino Randoli. Nascia ali uma amizade duradoura, registrando-se horas de conversa e discussão sobre fé e religião nos jardins da ampla pensão. Com o tempo, homens e mulheres passaram a fazer parte dos estudos, o que levou à criação da “Sociedade Evangelizadora de Campos do Jordão”, dedicada a encontros para leitura, reflexão, oração e ensino da Palavra de Deus.

Em 1939, o grupo adota a denominação Igreja Metodista, de onde eram originários os materiais utilizados durante as reuniões de oração e estudo.

Com a concessão do Alvará de Licença pela prefeitura, em 05 de novembro de 1941, tem início a construção do primeiro templo cristão “não-católico” de Campos do Jordão, que levou um ano para ser finalizado, sob a batuta de Floriano Rodrigues Pinheiro.
Dois anos depois, em 1944, é organizado o primeiro rol de membros da Igreja Metodista de Campos do Jordão, contendo os 35 nomes que assim constituíram a primeira igreja evangélica da História da cidade.

De lá para cá, são 83 anos de fé, esperança e trabalho desta instituição cuja trajetória se confunde com a História local. A comunidade que surgiu em meio a um cenário de dor, de doenças, de guerra e ditadura cresceu, e cresceu porque foi criada não por homens, nem por governantes municipais, estaduais, federais ou mundiais, mas pelo próprio Deus, que preparou – e continua preparando – homens e mulheres para que Sua Palavra continue sendo disseminada nestas terras altas da Mantiqueira paulista.

A Igreja Metodista local acolheu e deu guarida para entidades sociais importantes de nossa cidade – entre elas, os Alcoólicos Anônimos e a APAE. Mas mais do que isso: nesses primeiros oitenta e três anos de existência, foi lugar de acolhimento, amor, refrigério e esperança. Foi lugar de vida.
Trinta anos após finalizada a construção do templo, em 1972, os parentes das vítimas da tragédia da Vila Albertina encontraram as suas portas abertas e a mesa posta para o alimento do corpo e do espírito enquanto esperavam o fim do resgate das vítimas.

O velho templo foi tombado, e hoje faz parte do Patrimônio Histórico e Cultural de Campos do Jordão.

Pastores e pastoras passam, pessoas vêm e vão, sucedem-se governos e principados, e a Igreja Metodista de Campos do Jordão segue sendo uma referência em nossa cidade, justamente porque não pertence a uma obra de homens: trata-se de um autêntico Projeto de Deus, criado para servir de Luz da Terra e Sal do Mundo.

Que os próximos 83 anos encontrem uma comunidade unida, cada vez mais sólida, consolidada e pronta para continuar espalhando Vida por esta Montanha Magnífica.
E Vida em abundância.

 

Benilson Toniolo, professor, escritor e historiador, foi Secretário Municipal de Valorização da Cultura de Campos do Jordão (2013-2024) e atua como consultor do Sebrae para efetivação de políticas públicas de Cultura em doze municípios brasileiros. Membro de diversas Academias de Letras e outras entidades culturais, escreve artigos sobre Política, História e Cultura.

 

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