Enquanto você lê esse texto, 2 pessoas ficarão feridas em um acidente de trânsito. Nos próximos 15 minutos, uma morrerá e, até o final do dia, mais de 90 virão a óbito entre mais de 700 feridas. No fim do ano, serão 1 milhão de acidentes, cerca de 33.000 mortes. O mais triste é que pelo menos metade desses acidentes, fatais ou não, poderiam ser evitados, pois serão causados por pura imprudência de um motorista.
Mas que motorista? Quando analisamos os números sobre infrações de trânsito, suspensões de carteira ou acidentes, mais de 70% dos casos envolvem… homens. E homens jovens, boa parte com idade entre 20 e 29 anos.
Um erro comum de leitura desses números é justificarem isso alegando que existem mais homens habilitados do que mulheres. Em números absolutos, sim, há mais homens motoristas do que mulheres, especialmente motociclistas. Mas os cálculos sobre o gênero dos envolvidos (causadores e vítimas) consideram a proporcionalidade, ou seja, levam-se em conta as ocorrências dentro de cada grupo. Em alguns levantamentos, como por exemplo no estado de São Paulo, em 2020, mais de 90% dos acidentes tinham homens ao volante e 85% das fatalidades foram causadas por eles. Essa proporção supera em muito a proporção de habilitados homens em relação a mulheres.
Se você ainda resiste em acreditar nesses dados, vamos lembrar que a imprudência masculina não é acaso, nem ignorância, nem falta de perícia, mas, sim, um padrão comportamental robusto, documentado há décadas não só atrás do volante, mas em diversos campos da vida. Isso é notório no menor cuidado masculino com a saúde, no abuso de álcool e drogas, no comportamento de risco físico, nas decisões financeiras arriscadas, nos desafios sociais e competitivos, além de recorrerem mais à violência em várias situações, fazerem brincadeiras perigosas desde infância, em suma, assumirem diversos comportamentos de risco desnecessários na maioria das vezes. O trânsito, portanto, é só um dos lugares de intensa manifestação desse tipo de comportamento.
Respaldando esse fenômeno, vários estudos* mostraram que, quanto mais perigoso o risco, mais masculina tende a ser a autoria. Tentando explicar isso, psicólogos questionaram se questões cognitivas como “os homens são mais habilidosos” ou “as mulheres são mais medrosas” explicariam esses dados. E entenderam que não. Concluíram que o fator decisivo é motivacional e social, e não cognitivo.
Mas, então, o que leva esses homens a exceder a velocidade permitida, fazer ultrapassagens indevidas, se distrair mexendo no celular, dirigir alcoolizados, tirar racha, disputar preferência para trocar de faixa, atravessar o sinal vermelho, não guardar distância segura…?
GANHOS IMAGINÁRIOS VAZIOS
Chegar à frente, conseguir ultrapassar a tempo, não se atrasar para o compromisso, ser mais rápido que o outro, burlar a regra, fazer a conversão sem ninguém ver, se vingar de quem te fechou, mostrar pro passageiro que dirige bem, mostrar a potência do motor, fazer mais entregas. Todos esses sentimentos ou vontades que levam a comportamentos imprudentes são motivados por ganhos de pouquíssimo ou nenhum valor real. São ganhos imaginários, que só na fantasia desse motorista produzem alguma sensação de superioridade, vantagem ou potência, mas que na verdade não produzem absolutamente nada disso. São micro-vitórias de uma competição fictícia, com uma superioridade momentânea, e uma ilusão de controle de quem se supõe mais potente do que realmente é ou precisaria ser.
No trânsito, ninguém ganha nome, posição, prestígio, reconhecimento. Nenhuma vantagem faz alguma diferença concreta na vida, algo que valha cada risco assumido.
A realidade sobre a imprudência masculina no trânsito é que ela representa uma troca miserável: eles matam alguém ou tiram a própria vida por causa de 2 minutos a menos na estrada, por uma submissão imaginária de um motorista “rival” ou uma carícia solitária e efêmera no próprio ego.
Ninguém morre no trânsito por grandes causas. Morre-se por motivos pequenos demais para justificar o risco. Dá pra chamar de ganho qualquer coisa que custe uma vida?
ANONIMATO
No trânsito, quase tudo depende de uma fantasia silenciosa: a de que ninguém importa tanto quanto eu. O carro à frente não é uma pessoa, é um obstáculo. O da esquerda não é alguém com história, é um atraso. É essa despersonalização que permite o excesso. Talvez, a pergunta que deveríamos fazer é: por quem, exatamente, você está disposto a matar ou morrer agora? Quem vale esse risco?
Talvez o pé pesaria menos no acelerador se soubéssemos o nome de quem está à nossa frente. Se você soubesse que é a sua mãe quem está dirigindo o carro na pista contrária, bem na hora que você pensa em ignorar a faixa dupla e ultrapassar a todo custo. Se fosse o seu filho na moto que você poderia acertar em cheio ao avançar o sinal vermelho. Talvez algumas fatalidades não acontecessem se o outro simplesmente deixasse de ser um anônimo e ganhasse um rosto.
UM ATO AUTOMÁTICO: NÃO É POTÊNCIA, É UMA SUBMISSÃO
É comum confundir imprudência com coragem, excesso com potência, transgressão com liberdade. Mas a maioria das imprudências no trânsito não nasce de uma escolha autônoma, nasce de um automatismo. É obediência cega a um script masculino antigo, repetido à exaustão: Acelerar. Disputar. Conseguir. Não ceder. Não perder.
Essa repetição traz uma questão curiosa: se todo mundo está fazendo exatamente a mesma coisa, e você é mais um ali, fazendo igual, então você não está só obedecendo cegamente ao script? Se a regra é fazer das ruas um palco para disputas, e você sai fazendo isso sem pensar, que valor tem sua liberdade mesmo?
Precisamos de menos homens submissos às fantasias masculinas. Homens capazes de pensar duas vezes antes de fazerem bobagens que custam muito caro. Com freio na mente, não só no pé.
O SUICIDA/HOMICIDA QUE NÃO SE RECONHECE
Talvez seja preciso dizer algo ainda mais duro. Boa parte das mortes no trânsito não são acidentes. São suicídios sem intenção consciente e homicídios com vítimas aleatórias. Não há, na maioria das vezes, um desejo declarado de morrer ou de matar. O que existe é um flerte contínuo com o limite, uma banalização do risco, como se a morte fosse sempre algo negociável, sempre adiável, sempre vencível. Até o dia em que não é.
Isso vai além de uma simples onipotência narcísica e não tem nada de brincadeira. Trata-se de um impulso em direção ao risco extremo que raramente é levado a sério pelo próprio sujeito. Ele não aparece como vontade explícita, mas se manifesta em gestos repetidos: o excesso tolerado, a regra desprezada, o descuido que se acumula, a curiosidade perigosa. Quando o desfecho fatal acontece, ele costuma parecer um acaso, mas talvez seja apenas o fim de uma sequência longa, repetida muitas vezes com mais sorte antes, até que essa sorte, enfim, impôs um limite ao circuito.
ABRIR MÃO DE ALGO QUE NÃO CUSTA NADA EM NOME DO QUE CUSTA TUDO
Talvez dirigir melhor não seja apenas uma questão de educação no trânsito (especialmente num momento em que as regras para tirar habilitação se tornaram tão “flexíveis”, pra dizer o mínimo), mas de suportar, em seu íntimo, não provar nada a ninguém e não negociar a vida por ganhos medíocres, sem valor.
Enquanto argumentos que apelam ao medo, à culpa ou à estatística têm se mostrado ineficazes, seguimos com a pergunta: o que pode fazer os motoristas, especialmente os homens, pensarem duas vezes antes de fazerem más escolhas ao volante?
Precisamos ajudar cada condutor a perceber sua relação com o risco, e com certeza não só no trânsito. Quando eles ultrapassam limites às custas do que há de mais irrecuperável, que é a própria vida ou a vida do outro, já não estamos mais falando só de educação, bem-estar ou amor-próprio, porque não há um “depois” que possa compensar absolutamente nada. Estamos falando de algo mais radical. Precisamos mostrar a eles que colocar tudo em jogo em nome de uma urgência, exigência ou necessidade é uma submissão a um imperativo que não tolera falhas ou perdas (mesmo fictícias), e que produz consequências definitivas quando obedecido cegamente, sem reflexão.
Fazer do risco uma saída automática, como desafio à própria potência, pode ser fatal.
Potência não é transformar a própria vida num teste constante de capacidades. Potência é poder sustentar limites (inclusive o de chegar depois, perder algo, frustrar alguém) e ainda assim continuar vivo.
* Mais de 150 estudos sobre gênero e riscos foram analisados por Byrnes, Miller e Schafer em “Gender Differences in Risk Taking: A Meta-Analysis”, demonstrando como homens assumem mais riscos que mulheres de modo consistente. Tais diferenças são menores em riscos triviais e aumentam substancialmente quanto mais os riscos envolvem morte, lesão grave ou dano irreversível.

Erika Faria ([email protected]) e
Cezar Perini ([email protected])
são psicólogos e psicanalistas,
moradores de Campos do Jordão


