“PARA as novas gerações, O NÃO DEMISSIONÁRIO”. Por: Júlio Kok Carvalho

"O Caminhante sobre o Mar de Névoa" - Caspar David Friedrich - 1818

Aquele que nunca recebeu um não, onde chegou?

Na soma da minha vida,
Ouvi mais o não do que o sim.
Foi assim que o mundo veio,
foi assim que veio a mim.

Os beijos tentados, namoros imperfeitos, promessas de amor, sem nunca nada definir,
foram sonhos vestidos de nãos,
até um deles resistir.
O certo e derradeiro,
Do qual nunca pude desistir.

Jovem, enviei currículos ao vento,
Buscando uma profissão.
Foram trinta e oito a se perder.
Veio um sim, pequeno e tímido,
que virou meu jeito de ser.
E só esse único,
é o sim para se manter.

Pedi mais do que mereci,
da vida,
dos avós,
ao pai que não tive,
à mãe e ao destino.
Tentei.
Recebi mais do que imaginei.

Minhas ideias,
muitas e demais,
foram as campeãs dos nãos na partida.
Uma realidade de qualidade bem sentida.

E um pé na frente do outro,
sem parar e de mansinho,
Para cada porta que se fechou,
Abre-se uma janela…
pra espiar outro caminho.

Foram nãos nos projetos,
nos desejos mal plantados,
nas coisas que eu chamei de minhas,
e nunca foram de fato.
E entender isso, com o tempo,
foi um ganho disfarçado.

Foram nãos pro nascer do dia,
foram nãos ao pôr do sol.
Disse não para quase nada.
Nunca disse não para noite,
menos ainda para a madrugada.

Mas tantos nãos viraram um nó.
Que doem quando chegam,
Libertam quando se vão,
e viram pó!

Nãos no trânsito dos faróis,
na disciplina que me falhou.
Nos anos de trabalho,
Nãos que eu tonto me dei.
Nãos na saúde adiada,
nas promessas que quebrei.

Esse encontro com o não,
acontece com quem sente demais,
tem mais peito que regra,
mais paixão e quer sempre mais,
Gente que pensa, faz! tropeça,
sofre mais do que os iguais.

Mas o não também depura,
faz silêncio, limpa o chão,
tira excesso, corta o ruído,
abre espaço nesse mundão.
O não afia o caráter,
E desenha a direção.

Para cada milhar de não,
vem um sim.
Entre os poucos dos meus sims,
Dos que pela vida vi desfilar,
Eles foram tudo,
Maiores do que o mar.

Para mim, foram que nem chamado, coisa certeira,
vocação,
Paixão pela Mantiqueira.
AMOR POR CAMPOS DO JORDÃO.

Para as novas gerações vale lembrar,
O não se enfrenta com coragem,
O tempo faz dele só moldura,
E no tempo ele vira margem,
Cavalo sem embocadura.

A vida está ainda pra se contar,
E se a gente tem amor,
e a quem amar…
O não é demissionário!!
Coisa à toa,
Sem assento,
E sem lugar.

 

Júlio Kok Carvalho é advogado, empresário,
amante da natureza,
de Campos do Jordão
e das coisas boas da vida.

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