Campos do Jordão, 152 anos: entre a vocação e o futuro. – Por: Benilson Toniolo

O trânsito diário em nossa cidade tem sido bastante generoso em nos conceder tempo livre para o exercício da reflexão.

É simples: seja de carro próprio, de aplicativo ou mesmo de ônibus (quando tem), quem sai para trabalhar ou estudar (digamos, às sete e vinte da manhã) ou voltar para casa depois do expediente (entre cinco e seis da tarde) vai encontrar diversas oportunidades de, simplesmente, parar em algum congestionamento (geralmente mais de um) e dedicar alguns minutos para fazer o que quiser: olhar o celular, trocar de música, assoviar boa parte de Faroeste Caboclo, mandar mensagem, ver se há algum conhecido no carro ao lado, xingar mentalmente os ciclistas na avenida e os pedestres na ciclovia, se assustar com as motos barulhentas e agressivas vindas de todos os lados, reparar que mais uma loja fechou as portas e fingir que não está vendo a aproximação daquele pedinte em sua direção.

O local, você pode escolher: entre os trevos de Vila Albertina e Santa Cruz; entre o posto do Scofano e o Piratininga; a curvinha das Casas Bahia, logo depois da Estação Abernéssia; entre o Pão de Açúcar e o Jaguaribe (ali a espera é longa); nas imediações do Sans Souci; chegando ao Capivari, Recanto Feliz…

O que não faltam são pontos de parada para que o cidadão possa dedicar bons minutos a fazer muitas coisas úteis enquanto espera. Entre elas, pensar na vida: na casa, no trabalho, no casamento, na família, nas contas, no time de futebol, nos amigos, no que vai fazer na próxima folga; de repente, fazer uma oração, sentir a própria respiração, pensar em melhorar a dieta ou dedicar-se a um exercício de cidadania e refletir sobre a própria cidade.

Sim. O já caótico trânsito diário de Campos do Jordão nos permite dedicar alguns bons minutos a, simplesmente, refletirmos sobre a nossa cidade. Ainda mais agora, quando completamos 152 anos de fundação.

Comemorar o aniversário da cidade é importante, mas ainda é pouco. A celebração dos 152 anos de Campos do Jordão deve servir também para que nos dediquemos à reflexão. Vou compartilhar uma delas, que experimentei por esses dias, enquanto esperava o pessoal do departamento de trânsito liberar os carros que vinham do portal.

Entre paisagens que encantam, um clima incomparável e uma história marcada pela hospitalidade, é indiscutível que a cidade possui, sim, uma vocação turística. Desde seus primeiros ciclos de desenvolvimento, o clima, a arquitetura e o imaginário construído em torno da “Suíça brasileira” (detesto esse apelido) pavimentaram e consolidaram esse caminho.

Mas, se essa vocação é tão evidente, por que temos a sensação de que há uma espécie de “mudança de rumo” na atividade turística? O turismo mudou, ou mudamos nós? Ou ambos? Ou foi o mundo? Acho que tudo isso.

Nos últimos tempos, especialmente a partir da temporada de inverno de 2025, observa-se uma percepção — que pode até ser reforçada por dados do setor — de diminuição no fluxo de visitantes. Ainda que oscilações sejam naturais, o que se nota é algo mais profundo: um descompasso entre a expectativa construída ao longo de décadas e a experiência efetivamente oferecida ao turista contemporâneo.

Esse cenário levanta uma questão central: há, hoje, um planejamento turístico de longo prazo? Mais do que isso: estamos pensando a longo prazo? No trânsito, na estrutura viária, na manutenção e no desenvolvimento dos pontos turísticos, na sustentabilidade, na qualidade da educação pública, no desenvolvimento social e econômico, na cultura, na segurança pública, na acessibilidade, na empregabilidade, na formação profissional, nas necessidades de crianças e idosos… Afinal, tudo acaba desaguando, em maior ou menor grau, na atividade turística, diretamente impactada pelas decisões que tomamos a cada dia.

Mais do que ações pontuais ou respostas sazonais, o momento parece exigir uma reflexão estruturada sobre o modelo que sustenta a nossa principal atividade econômica.

Não, a responsabilidade não é — somente — da administração. O atual governo municipal, ainda que alguns não acreditem, também vai passar, assim como passaram todos os que o antecederam. Governos passam, felizmente, e a cidade continua, apesar das descontinuidades. Falando nisso, onde foram parar o Festival de Verão, o Arte na Primavera, o Café com Poesia, a Caça aos Ovos?

Não se trata de apontar culpados, mas de reconhecer que destinos turísticos precisam se reinventar. O visitante mudou — seus interesses, seus hábitos de consumo, sua relação com o tempo e com os espaços. E cidades que não acompanham essas transformações correm o risco de ver sua vocação tornar-se apenas memória: lugares de passagem, e não de afeto.

Rediscutir o turismo em Campos do Jordão é, portanto, uma necessidade de cunho estratégico. Isso passa pela rediscussão de nossos atrativos, pela valorização da cultura local, pela sustentabilidade, pela qualificação de serviços e, sobretudo, por um pacto coletivo que envolva poder público, iniciativa privada e, principalmente, a comunidade.
Passa pela revisão de nossa própria maneira de ver a cidade como organismo vivo e carente de cuidados.

Sem a participação efetiva da sociedade civil, não chegaremos a lugar nenhum. E ela parece estar cada vez mais distante dos principais ambientes de decisão.

Aos 152 anos, Campos do Jordão segue sendo um lugar de beleza singular. Mas a permanência de sua relevância turística dependerá, cada vez mais, da capacidade de planejar o futuro com a mesma sensibilidade com que, um dia, soube construir sua identidade.

Parabéns, cidade querida.

Não é hora de apenas pensar no futuro.

É hora de construí-lo. Juntos.

Ops! Andou. Deixa eu engatar a primeira aqui e tratar de avançar um pouco, porque ali na frente vai travar tudo de novo.

Benilson Toniolo, professor, escritor, historiador e gestor público, atua como consultor da AME Cultura (Agência Mineira de Entretenimento) em projetos do Sebrae para efetivação de políticas públicas de Cultura em diversos municípios brasileiros. Membro de várias Academias de Letras e outras entidades, escreve artigos sobre Política, História e Cultura.

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