A carta de Dante. Por: Benilson Toniolo

Sempre gostei de escrever cartas. E de receber também. 

Posso dizer que na juventude, quando ainda se escreviam cartas, fui um grande escrevinhador, daqueles que fazem o rascunho primeiro para “passar a limpo” demoradamente depois em folhas de caderno universitário. Papel almaço custava dinheiro. Melhor era arrancar uma folha em branco do caderno da escola. Na última folha, sempre um desenho, um poema rabiscado, uma frase, um evento importante que nos surpreendia e a gente anotava para rever à noite, com a emoção de revisitar o inesperado acontecido.

Na infância, escrevia cartas para Angela e Silvia, as primas de Campinas e para a dona Neide, minha mãe. Na adolescência, escrevia para as meninas por quem me apaixonava – e eu me apaixonava pelo menos uma vez por semana, e escrevia, escrevia, escrevia. Toda paixão nova era a namorada ideal, eterna e definitiva.  

A literatura entrou na vida com a força – e no mesmo tempo – da explosão dos hormônios. E as cartas ficaram mais, digamos, poéticas e amorosas. Misturava Vinicius de Moraes com Mario Quintana e pitadas de Rilke e Adoniran Barbosa. Cara-de-pau é pouco. 

Quanto o tio Aldo internou com um quadro grave de insuficiência renal, escrevi uma carta dizendo que aquilo não ia ser nada, que em breve ele voltaria para casa e que “ruim mesmo era a defesa do Santos”. Sim, Luis Fernando Verissimo já fazia parte da minha pequena estante de livros. O tio nunca voltou. E não consta que tenha lido a carta. 

Certo dia chegou na casa da minha tia uma carta vinda da Itália. Pregaziol, Treviso. Terra do vô Mario. Ninguém ali entendia nada de italiano. Alguém levou para o consulado para que fosse traduzida. Caiu no esquecimento. 

Faço essas reminiscências para dizer que, nos últimos dias, algumas cartas manuscritas têm chegado às minhas mãos. 

A primeira, de minha tia Regina, recentemente falecida, que no final do ano passado escreveu um bilhete para sua irmã, Neide, minha mãe, desejando saúde no ano que se iniciava. Chorei quando li. 

A segunda, de Ivileia, a filha da Meire e do Zé Geraldo, amiga de infância de Simone, minha companheira. Nela, a amiga conta a Ivi como está a gravidez de Bruno, nosso filho mais velho. A carta data de dezembro de 1997 e foi escrita em João Pessoa. Bruno nasceria em São Paulo, em julho de 1998.

E por fim, não propriamente uma carta, mas um texto digitado e enviado, creio eu, por whatsapp, que é um modelo de redação e envio que se assemelham muito ao antigo caderno universitário, ao envelope e ao selo – e a caminhada até o correio, o tempo na fila, a emoção de ver a carta sendo carimbada pela moça do guichê… 

A carta – vou chamar de carta – foi escrita por um tio para seu sobrinho que acabara de nascer. O tio, Daval, que herdou o nome do pai e é filho de Nanci Pina, que todos conhecemos. Os pais da criança, Dalmo, oftalmologista, e Cibele, médica veterinária – filha da Berta e do Roberto da Romalar. Gente bacana, gente querida, gente da gente. 

A carta – insisto, vou chamar de carta – é breve, rápida e sucinta, como são todos os textos escritos no aplicativo de mensagens. Nem poderia ser de outra forma. O tio, que é professor, escreve como quem afaga a cabeça da criança recém-nascida. Escreve como quem silencia. Escreve como quem dedilha um violão – delicada e desapressadamente. 

É assim, a carta que me veio às mãos na última semana. Do tio para o sobrinho. 

“Hoje é o dia do Dante. Parabéns, Dante! 

Bem-vindo aos braços abertos da sua família muito acolhedora e que já te quer muito, muito bem. 

Mas não se iluda, filho, de comédia esse mundo tem muito pouco, de divino, então, quase nada… O que ajuda, menino, é um pouco de esperança que eventos, como o seu nascimento, trazem para cá. 

Não que nascer traga necessariamente uma luz para a vida. 

É preciso te informar que, no mundo em que você aportou, outros sete bilhões de pessoas também atracaram sem trazerem, grande parte, a expectativa de dias melhores para os outros. 

Mas você traz, Dante. 

E traz porque eu sei que te ensinarão a ser bom. Te ensinarão a tratar indistintamente a todos com respeito. Te ensinarão que justiça é dividir. Te ensinarão que o pobre é seu irmão. Te ensinarão que gente é gente em qualquer circunstância seja lá o que tenham feito. Te ensinarão que lugar de homem é na cozinha. Te ensinarão a optar pelo prejuízo próprio do que fazer quem quer que seja sofrer; que ser vítima é preferível mil vezes a ser algoz de alguém, ainda que esse último seja, em regra, o que se mantém vivo. Vão te ensinar a não enganar. 

Vão te ensinar que um grande homem não é o mais poderoso, não é o mais rico, não é o mais bem-sucedido. Vão te ensinar que entre levantar a mão contra alguém e carregar consigo uma infâmia vil, covarde e humilhante sempre é preferível essa segunda opção. Vão te ensinar a amar, filho. E você vai descobrir sozinho que uma flor vale mais do que um carro zero. Vão te ensinar a ter misericórdia e como um homem que é homem, você vai chorar. E vão te ensinar o que significa altruísmo e você vai chorar mais um pouco. 

E aí, você desenvolverá um coração de verdade e estará em completa e total desarmonia com o planetinha onde você desceu.  E então muitas coisas começarão a acontecer, possivelmente desagradáveis. 

Mas tenha medo não, vem prá cá, filho, vem pra ser sal da terra. 

Não se conforme, não. 

Não nasça à toa, gente assim já tem demais por aqui. 

Ainda há lugar para gente boa no globo. Inclusive, poucas vezes, precisamos tanto de pessoas assim como nesses tempos. 

Te asseguro, é muito pouco, mas dá para fazer alguma diferença. 

Obrigado pela esperança. A despeito da sua consciência e da sua educação, seremos até felizes. 

Bem-vindo, meu sobrinho.”

As palavras são do tio Daval.

E Dante e Otto, seu irmão, são meninos vibrantes, brilhantes, amorosos, que passam os dias em meio às tarefas da escola, às brincadeiras, aos cultos e atividades da igreja Metodista e, atualmente, em meio a muitas figurinhas e o álbum da Copa do Mundo.

As lágrimas foram minhas, talvez ainda impactado pela surpresa trazida pelo texto e a aspereza do luto recente vivido em família.

Quis compartilhar neste espaço, com vocês, que semanalmente dividem comigo o sonho de continuar escrevendo. 

Porque, no final das contas, a vida não passa mesmo de uma folha de papel em branco. E até que a gente seja obrigado a largar a caneta, a escrita só depende da gente.

Benilson Toniolo, professor, escritor, historiador e gestor público, atua como consultor da AME Cultura (Agência Mineira de Entretenimento) em projetos do Sebrae para efetivação de políticas públicas de Cultura em diversos municípios brasileiros. Membro de várias Academias de Letras e outras entidades, escreve artigos sobre Política, História e Cultura.

 

Mantiqueira Classic é confirmado em Campos do Jordão para 2027

Paisagens branquinhas: geada marca o amanhecer em Campos do Jordão