“Teimoso é o outro. Eu sou persistente!”
É comum dizermos que alguém é teimoso, quase sempre com um tom de impaciência e reprovação, quando nos deparamos com situações cotidianas em que a insistência de alguém em um ponto de vista parece um obstáculo insuperável. Pode ser um filho que desafia a autoridade dos pais, um idoso que se recusa a adotar uma conduta importante para o cuidado com sua saúde ou um colega de trabalho que quer porque quer fazer as coisas do seu jeito. Nessas horas (ou dias, meses, anos!), a teimosia surge como uma barreira que impede o diálogo, dificulta mudanças importantes ou atrapalha a convivência que poderia ser mais leve.
Afinal, por que será que alguém empaca em um comportamento ou visão das coisas e nunca “dá o braço a torcer”?
POR QUE O BRAÇO NÃO TORCE?
A insistência em uma ideia ou forma de agir, principalmente aquelas que muitas vezes nos parecem irracionais, sem sentido ou nocivas, costumam produzir uma sensação de incredulidade em quem observa esse comportamento do outro. Isso porque, de modo geral, quando nos deparamos com algo que tem cara de teimosia pura, provavelmente estamos diante de uma coisa que só faz sentido para a pessoa que a pratica.
A teimosia parece cumprir um papel importante para a pessoa: funcionar como uma defesa. Uma defesa diante do novo, de uma mudança necessária mas difícil de ser enfrentada ou uma resistência a coisas que lhe custam muito física ou emocionalmente.
Quando alguém diz ao teimoso “você não pode continuar se alimentando desse jeito ou vai adoecer”, ele logo tira uma explicação da cartola: “mas eu nem estou comendo tanto assim”. Quando chamamos a atenção para um posicionamento injusto falando “você sabe que está errado, deveria pedir desculpas a ela”, ele logo diz “ela é quem está!”. Ao repreender um filho, que mãe nunca ouviu “só mais cinco minutinhos!”. No trânsito, tem sempre aquela pessoa que pára em local proibido porque “estava precisando e era rapidinho”.
Não abrir mão do prazer da comida, não aceitar admitir um erro, rejeitar o limite colocado pela mãe ou pela lei: em todos esses casos, cada pessoa se defende daquilo com que não quer lidar por meio de comportamentos absurdos, e sempre arrumam uma justificativa para suas posições.
A mudança esperada, por mais óbvia e apropriada que nos pareça, representa muitas vezes uma ameaça ao teimoso. Mas, uma ameaça a quê, exatamente?
A LÓGICA DA TEIMOSIA
Para uma pessoa que teima, reconhecer que seu comportamento é errado, inapropriado, irracional ou nocivo – para si e para os outros – pode significar encarar dificuldades com as quais a pessoa não está apta para lidar. É como se a teimosia fosse uma barreira protetora contra sentimentos de impotência ou angústias que, graças às suas ideias inabaláveis, o sujeito teimoso consegue manter afastadas. Em vez de se abrir a uma experiência emocional transformadora – de si mesmo ou de suas relações – essas pessoas recusam o que vem de fora e fixam-se, endurecem em suas posições para não lidar com o que é penoso.
Esse funcionamento é profundamente econômico. Pensar dá trabalho, duvidar desorganiza. Mudar, mais ainda. Ao teimar, o sujeito muitas vezes se ancora num tipo de pensamento que busca coerência, previsibilidade, sentido. “Sempre fui assim”, “já estou velho demais para mudar”, “pra mim isso aí não funciona”, “eu sei o que é melhor pra mim” – essas falas revelam um esforço para sustentar uma identidade, mesmo que às custas de sofrimento. Há uma lógica interna em jogo, uma necessidade de continuidade, de permanência das coisas como elas estão – ainda que a pessoa diga que queira mudar!
Não por acaso, a teimosia parece uma compulsão à repetição, uma espécie de fidelidade do sujeito com seu modo de funcionar. A mera ideia de mudar esse funcionamento soa como um alarme interno que diz: “você vai perder algo muito precioso se fizer isso!”. Seja o prazer da comida, o alívio do remédio, a alienação da droga, a superioridade na situação, a imagem de quem sabe muito, a reputação perante o olhar dos outros… O teimoso sente que há uma perda iminente caso mude sua posição, e que isso lhe fará mal. Insistir em seu modo de agir é preservar um modo de ser.
A teimosia mostra que, para muita gente, a repetição nociva daquilo que lhes faz mal é mentalmente mais econômica, pelo simples fato de que isso proporciona uma estabilidade via repetição do conhecido. É sofrido, mas é familiar. Não é só uma ignorância ou má vontade: é um limite da pessoa, um ponto onde lhe faltam recursos para suportar as mudanças de ideias e condutas que seriam especialmente desafiadoras por afetarem seu ego, seu corpo ou seu convívio.
QUANTO MAIS VELHO, MAIS TEIMOSO?
Você já reparou que as pessoas parecem ficar mais teimosas com o passar do tempo?
Na velhice, por exemplo, quando as pessoas vivenciam uma série de experiências de perda – das capacidades físicas, papéis sociais, pessoas queridas etc. – a teimosia pode emergir como uma tentativa de preservar a autonomia, resistir à infantilização ou para afirmar um “eu ainda estou aqui e sou um sujeito de direitos e desejos!”. Geralmente esse traço aparece diante das tentativas de cuidado dos filhos (uma incômoda inversão de papéis) ou na medicalização frequentemente necessária nesta altura da vida. Está longe de ser um comportamento novo, apenas algo que o tempo aos poucos cristaliza e deixa mais visível. Crenças e posturas costumam ficar mais radicais e a plasticidade mental para mudanças parece reduzir cada vez mais.
O tempo, portanto, parece ser um inimigo da mudança, o que é um problema especial em uma fase da vida onde talvez mais precisamos dela. Conforme vamos envelhecendo e dependendo cada vez mais de novos cuidados, é justamente nessa hora em que nos tornamos mais fechados e resistentes àquilo que demanda renúncias de pensamentos e comportamentos. O hábito e a história de cada um dão muita força a essas defesas que chamamos de “teimosia”.
A DELICADEZA DE NÃO SALVAR
Lidar com a teimosia é uma tarefa árdua. Por isso, é preciso aprender a ouvi-la como uma mensagem a ser decifrada. Entender que a resistência do outro é parte de um processo difícil para ele, e não um erro a ser corrigido.
Estimular a pessoa a sair dessa posição é, sim, um papel de quem a ama. Porém, há uma dimensão ética implicada nisso. É preciso um especial respeito ao olhar para alguém empacado em uma posição, reduzindo julgamentos morais e tentando compreender a função que isso cumpre para a pessoa.
Se a teimosia tem uma função estruturante para alguém, a única pessoa que pode mexer nisso é quem a construiu. Para nós, fica a tarefa de suportar que, talvez, o outro não mude. Triste? Claro. Mas podemos amá-los e querer o melhor para eles, sempre aprendendo a amar com limites. Assim, não corremos o risco de sermos nós os teimosos em querer mudar o outro.
E lembremos que, tanto para quem cuida quanto para quem teima, é sempre bom fazer a seguinte pergunta: “o que se perderia se ela/eu cedesse?”

Erika Faria ([email protected]) e
Cezar Perini ([email protected])
são psicólogos e psicanalistas,
moradores de Campos do Jordão.


