Maria Lucia Felix Donato, a Malu, foi uma das mais brilhantes e arrojadas empresárias de Campos do Jordão.
Foto acervo Edmundo Ferreira da Rocha
Nascida em São Paulo em 1941, filha de Sebastião Félix e da italiana Anacleta Bressan Félix e casada com Orestes Mario Donato – homem de alta cultura, excelente fotógrafo e autor de artigos históricos publicados pela imprensa local -, ela fundou, em 1979, a Malu Decorações, que se tornou uma referência no comércio local, tanto para turistas quanto para moradores, e um dos pontos mais elegantes de Vila Capivari.
Falecida em 2017, aos 75 anos, Malu Donato sempre foi sinônimo de elegância, simplicidade e beleza. Alguns contemporâneos seus já me confidenciaram, inclusive, ter sido ela a mulher mais linda que já existiu em Campos do Jordão. Devem estar certos, a julgar pelas fotos que andei “pescando” no site do meu amigo Edmundo Ferreira da Rocha, o camposdojordaocultura.com.br. Donato era mesmo um homem de sorte.
O que eu não sabia – e suspeito que poucos ainda se lembrem – é que, além de tudo, Malu Donato foi uma grande defensora do meio-ambiente, tendo inclusive assumido a coordenação do GECA – Grupo Ecológico de Estudos e Controle Ambiental – em uma época em que, no auge da construção civil, Campos do Jordão convivia com a construção de inúmeros condomínios, hotéis e residências. Malu, no entanto, estava atenta a toda essa movimentação e tinha especial cuidado com os impactos que essa transformação podia causar.
No mês de abril de 1988, nas páginas do jornal “Folha de Campos do Jordão”, Malu escreveu veemente artigo denunciando o corte de 38 cedros plantados na avenida Roberto Simonsen para construção de um condomínio composto por três blocos de apartamentos, de três andares cada. Diz Malu em seu artigo: “não entendemos porque pessoas que vêm a Campos do Jordão empreender, construir, não compreendem que o interesse que as motivou foi justamente a procura pela sua beleza, sua paisagem e seu clima. Chorando em cima dos cedros derramados, ficaremos cobrando da firma responsável e da diretoria do Meio-Ambiente esse reflorestamento”.
Em agosto do ano seguinte, liderou um protesto defronte à fábrica da Concrebrás, na Vila Albertina, em razão dos perigos que a operação da unidade trazia à população, já que o local era – e ainda é – vizinho à escola Laurinda da Matta, o que colocava em risco a integridade dos estudantes, professores, funcionários, pais e mães que por ali passavam diariamente. À época, Malu declarou: “a instalação de uma fábrica em um local residencial é contrária à vocação de Campos do Jordão, uma cidade de grande beleza paisagística; a fábrica vem agredir tudo isso”.
Malu foi ao prefeito, aos vereadores, aos jornais, à rádio Emissora, ao comércio. O condomínio foi construído e a fábrica, instalada. Ambos existem até hoje. Mas é preciso que todos saibam que naquela época – e lá se vão quase quarenta anos –, quando não era comum que mulheres presidissem entidades, houve uma que, corajosamente, levantou sua voz em defesa da preservação ambiental de nossa Cidade.
Particularmente, desconhecia essa faceta da personalidade de Malu Donato – o que só aumenta, ainda mais, minha admiração por sua trajetória.
Em mais uma “Semana do Meio-Ambiente” que se aproxima – todo mês de junho, todo mês de junho -, como todos os anos, ouviremos discursos e pronunciamentos acerca da importância da preservação ambiental no município que, há quase cinquenta anos, ostenta o título de Área de Proteção Ambiental por decreto do governo do Estado. Teremos distribuição de mudas, atividades escolares, campanhas de conscientização, debates, simpósios, fotos para as redes sociais. Tudo isso, claro, é muito importante. Mas é pouco.
A realidade mostra que a questão da preservação ambiental em Campos do Jordão é séria demais para ser abordada durante uma única semana por ano e, depois, colocada na segunda, ou terceira, prateleira de prioridades da comunidade. Discurso só funciona quando vem acompanhado de ação efetiva, funcional e permanente.
A Semana do Meio-Ambiente indica que é tempo de reflexão, atenção, preparo técnico, planejamento e ação coletiva de toda a sociedade, não apenas do poder público. Assim como fez Malu Donato – que, para além de empreendedora e empresária de sucesso, teve a coragem de seguir dizendo “não”, quando grande parte das pessoas optou pelo silêncio que se segue às grandes devastações.
Que todos saibamos reconhecer e valorizar as atitudes de quem, como Malu, levanta sua voz em defesa do bem comum.

Benilson Toniolo
foi Secretário Municipal de Cultura
de Campos do Jordão é escritor premiado
e membro de diversas academias de letras


