A memória virou entulho – sobre muros que caem derrubando histórias. Por: Erika Faria e Cesar Perini

 

“Quem vive de passado é museu!”

“Vão ficar chorando por algo antigo?”

“Olhar para trás não leva a nada!”

Essas frases são comentários reais na internet sobre a derrubada do muro da Estrada de Ferro Campos do Jordão para ampliação de uma ciclovia. Neles, observamos uma maneira curiosa de se relacionar com o passado. Aparentemente, tudo o que remete à nossa história tende a ser visto como um entulho incômodo, algo a ser removido. Nos chamou a atenção perceber que, para algumas pessoas, a preservação da memória cultural coletiva de um lugar pode parecer um atraso ou uma recusa ao “novo”. E que, em nome desse novo, está tudo bem passar um trator por cima do passado.

Que modernidade é essa que parece ter fissura em destruir o passado? Que só sabe acontecer em cima de ruínas? Que futuro é esse, com compulsão de borrão histórico?

Longe de parecermos “passadistas”, sério. Mas quando foi que a história se tornou sinônimo de “coisa velha”, a memória virou “artigo de museu”, honrar tradições passou a ser o mesmo que “parar no tempo” e o legado se converteu em uma herança sem valor?

Por que queremos tanto ser “não-históricos”, como se nada nos antecedesse, como se nada do que é hoje e do que vai ser amanhã tivesse a ver com o que já foi? Que utopia teimosa é essa de um futuro desamarrado do passado e do presente? Que ideia é essa? Será que estamos tão traumatizados que precisamos desprezar o passado, só para não ter que olhar para ele, e seguir olhando para frente com uma espécie de cabresto anti-história?

Seja no âmbito coletivo ou individual, nossa biografia se escreve no tempo. Apagar as marcas e rastros do que fizemos, fomos, conseguimos e construímos produz um apagamento de nós mesmos.

Progresso requer mesmo destruir o passado?

Progresso vem do latim progressus e significa avançar, ir adiante, seguir em frente. Isso, portanto, não quer dizer necessariamente tornar-se “melhor”. Você pode avançar… em direção a um precipício, por exemplo.


“Evoluir”, por sua vez, quer dizer “desenrolar”, tal como se abre um pergaminho. Na medicina, a evolução de um caso pode ser o surgimento de uma piora no quadro clínico, por exemplo.
Nenhuma dessas palavras é, em sua origem, um sinônimo de “melhoria”. Só porque as coisas mudaram não quer dizer que foi para melhor. Podemos “modernizar” a vida sem que isso represente um real aprimoramento.
Na arquitetura, temos exemplos disso há tempos. Nos últimos 100 anos, os ricos adornos e detalhes artísticos foram substituídos pelo minimalismo e pela neutralidade. A modernidade reduziu drasticamente o caráter narrativo, simbólico, artesanal e teatral da arquitetura. A poltrona Luis XV deu lugar ao pé palito, o teto ornamentado virou placa de gesso rebaixada, e a madeira maciça perdeu espaço para um MDF que empena num sopro. Destruições não só do simbólico das edificações e mobiliários, mas também da qualidade das coisas, vale ressaltar. O que vinha antes da mão do artista passou a vir da indústria, movida pela redução de tempo e custos (mão de obra sem qualificação, materiais baratos, alta escala) e grandes lucros. O “clean” pasteurizou as identidades próprias de cada lugar, criando um modelo genérico que pudesse representar modernidade onde quer que fosse construído, tudo isso mobilizado por fortes razões econômicas.

Aqui, ultrapassado; lá fora, celebrado

Felizmente, muitas cidades foram inteligentes e souberam criar obstáculos às modernizações destrutivas de suas memórias. 

Ouro Preto conseguiu preservar seu núcleo barroco, seu urbanismo colonial, suas igrejas monumentais e a memória histórica do ciclo do ouro e da Inconfidência, sem descaracterizações profundas. Com isso, foi a primeira cidade brasileira a ser considerada Patrimônio da Humanidade pela UNESCO e uma grande referência cultural. Se tivesse sido “modernizada” nos anos 1970, seria apenas mais uma cidade qualquer de Minas.

Barcelona conseguiu implantar ciclovias modernas sem demolir seu centro histórico medieval. Em Bruges, na Bélgica, souberam integrar harmonicamente o turismo moderno ao charmoso centro histórico, tornando-a um modelo de cidade que sabe adentrar o futuro preservando lindamente suas raízes.

O Muro de Berlim foi parcialmente conservado como memória do trauma — uma salvaguarda com grande valor simbólico, de um povo que entendeu a necessidade de reconhecer o que foi e o que fez. E o que seria da identidade judaica sem o Muro das Lamentações — um muro que não é feito de pedras, mas de perdas? Destruir completamente esses muros seria como reescrever a história, fingindo que nada aconteceu. Imagine chamar de “progresso” um projeto que servisse para o apagamento dessas memórias. 

O problema é que, quando se trata do Brasil, frequentemente nos deparamos com aquilo que tipicamente é conhecido como “complexo de vira-latas”. Os brasileiros que desprezam casarões antigos, muros, monumentos e lugares históricos em suas cidades são os mesmos que batem cartão, empolgados, no Coliseu, na Torre Eiffel, nos vilarejos históricos da Toscana ou nas ruínas de Machu Picchu. Muitas vezes, essas pessoas sequer sabem as belas ou inusitadas histórias por trás das coisas que as cercam, mas, se estão no exterior, não perdem a chance de fazer uma selfie mesmo com coisas banais, se souberem que há alguma história ali. É o caso do Marco Zero de Paris, dos cadeados na Ponte Vecchio em Florença, da estátua da Julieta em Verona ou do muro do John Lennon em Praga.

A história é o alicerce do futuro

Talvez o muro da paisagem ferroviária da cidade tenha sido demolido por falta de uma consciência histórica que o salvasse. Falta de valorização pública de uma memória por desconhecimento, ausência de interesse ou pura insensibilidade (para algumas pessoas, uma pedra é só uma pedra quando o olhar não sabe reconhecer as camadas de tempo nela inscritas). Quantas das marcas que definem a identidade histórica de Campos já foram sacrificadas sob a justificativa de que o progresso requer sua eliminação? Talvez tenha faltado um influencer com a hashtag tipo #MemóriaNãoÉEntulho, ou criar uma lenda de que tocar seu gorro no muro do bonde dá sorte. Não há mais tempo, mas fica a dica para outros alvos da “modernização”.

Só há futuro verdadeiro quando ele se ergue sobre uma memória viva. A modernização não requer destruição. Quando se reconhece o valor do que se tem, abrir mão disso não é tão simples. Tratar o que é patrimônio como “coisa velha”, além de ser condenável pela absoluta falta de sensibilidade, é uma tremenda sabotagem para uma cidade como Campos do Jordão, que depende profundamente do seu legado do passado para sustentar sua identidade e seu valor cultural. 

Erika Faria ([email protected]) e
Cezar Perini ([email protected])
são psicólogos e psicanalistas,
moradores de  Campos do Jordão

 

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