Saindo da Casa do Artesão de São Cristóvão, coração do estado de Sergipe, a quarta cidade mais antiga do Brasil e cuja praça principal, São Francisco, é declarada patrimônio da Humanidade, percebo um homem sentado em um banco rústico debaixo de uma jaqueira, bastante concentrado no que estava fazendo.
Passando por ele, espichei o olho para tentar ver a que se dedicava: em uma das mãos, trazia uma peça de madeira escura; na outra, um pequeno canivete. Bem, parecia um canivete, que ele manipulava com destreza e sem hesitação.
Aproximei-me e ele, pelo jeito, nem deu pela minha presença.
Perguntei o que estava fazendo. “Um carro de boi”, disse. Silêncio. Que interessante, eu disse. “Tem um monte desses em casa”. E o senhor faz pra vender? “Não, é só mais para passar o tempo e dar de presente para os filhos, os amigos. Quando a pessoa faz aniversário, eu levo um de presente”. Mas o senhor não vende mesmo, nem para turista? “Só se alguém quiser comprar. Mas não gosto de vender, não, gosto mais é de dar de presente mesmo, e melhor é quando a pessoa não espera, aí é mais gostoso, a surpresa, a pessoa fica feliz de ganhar um presente sem esperar e eu fico feliz também”.
São Cristóvão é quente. Sentei-me ao seu lado para aproveitar melhor o frescor da sombra da árvore e observar seu trabalho. A conversa seguiu, espaçada e sem pressa, como pedia aquela tarde de outubro. Eu ali, cuidando para não atrapalhar o homem em seu silencioso ofício. Como mágica, suas mãos firmes pareciam flutuar sobre a madeira enquanto trabalhava. Começou uma brisa leve vinda dos lados do rio Vaza-Barris.
É impressionante a sua habilidade, observei. “Ah, faço há muitos anos”. Quis saber quantos carros de boi já tinha feito. “Um tanto”, respondeu. O senhor é um grande artesão, eu lhe disse. Só então ele parou o que estava fazendo, olhou firme em minha direção e asseverou: “Não, senhor. Artesão é quem estuda. Eu nunca estudei. Trabalhei a vida toda, desde menino, em usina, lá em Pernambuco. Depois que consegui o ‘aposento’, voltei para meu lugar que é aqui. Então eu aprendi olhando os outros fazendo, inclusive um colega com quem trabalhei. Nas horas de folga ele catava um canivete, um pedaço de madeira, imaginava uma imagem e fazia, e me ensinou um pouco. O resto eu aprendi olhando e fazendo. Isso que eu faço eu não sei como chama. Mas não é artesanato não. Artesanato carece de estudo. Eu só passo o tempo”.
Transformar matéria-prima em algo novo. Olhar para um pedaço de madeira – ou de ferro, ou plástico, ou tecido, ou palha, ou lata, o que for – e enxergar a alma das coisas. Imaginar que aquilo que para os outros é algo sem utilidade, para o artesão é uma oportunidade de gerar vida e arte, ofício de vocação e destinação.
Então surge a pergunta, provocada pela fala do artista: existe diferença entre artesanato e trabalho manual?
O trabalho manual, sabemos, é toda atividade realizada com as mãos, envolvendo habilidade, dedicação e cuidado. Pode estar presente na produção de objetos decorativos, utilitários, peças de costura, bordados, pinturas, alimentos e tantas outras práticas em que a ação humana é essencial.
O artesanato, por sua vez, carrega uma dimensão cultural mais ampla. Mais do que uma técnica de produção, ele envolve saberes transmitidos entre gerações, identidade territorial, criatividade e uma relação simbólica com a história de um povo, de uma comunidade, de uma família. O artesão não apenas executa uma tarefa: ele transforma, planeja, elabora e dá novo sentido aos materiais: transforma referências culturais e imprime em sua obra uma visão de mundo que é própria – dele, artista, e tudo o que traz de experiência de vida e conhecimento acumulado.
Um trabalho manual pode resultar em uma peça única e carregada de significado. Da mesma forma, um artesanato pode nascer de uma técnica simples. A diferença fundamental está muitas vezes no contexto: o artesanato costuma estar ligado a um conjunto de conhecimentos tradicionais, a uma linguagem própria e a uma expressão cultural reconhecida por determinada comunidade.
Ambos, entretanto, possuem enorme valor. Tanto o trabalho manual quanto o artesanato trazem consigo conhecimentos, estimulam a criatividade, fortalecem a identidade cultural local e revelam formas de pensar e viver – muitas vezes transmitidos, como já disse, de geração para geração.
Em tempos de industrialização acelerada e objetos cada vez mais padronizados, o que nasce das mãos humanas nos remete à ideia de tempo e dedicação ao fazer artístico. Sem pressa, em diálogo permanente com o ambiente, com a História e com o entorno.
Na Serra da Mantiqueira paulista, o artesanato ocupa um lugar especial, que dialoga com a paisagem, com a história das pessoas, com as tradições, com a formação da região e com a vocação turística das cidades que a compõem.
A madeira, as fibras naturais, os tecidos, a cerâmica, os produtos inspirados na natureza e tantas outras expressões do fazer artesanal se constituem em peças que carregam a atmosfera das montanhas, o clima da serra e a criatividade de homens e mulheres que transformam matéria bruta em Arte.
Além disso, há também as dimensões cidadã, social e econômica, gerando conhecimento, renda e oportunidades de desenvolvimento humano – o homem como parte da natureza, e não mero utilitário dos seus recursos.
Cada peça produzida é uma pequena parte de uma grande História: a História humana deste lado do mundo. A grande História da gente brasileira, seja do Nordeste, seja de nossa Mantiqueira, seja de qualquer lugar.
Onde houver uma pessoa, um indivíduo, um ser humano capaz de observar a alma do mundo e transformá-la por meio dos seus saberes, da sua imaginação e da sua condição haverá um artista.
Haverá Cultura.
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Benilson Toniolo, professor, escritor, historiador e gestor público, atua como consultor da AME Cultura (Agência Mineira de Entretenimento) em projetos do Sebrae para efetivação de políticas públicas de Cultura em diversos municípios brasileiros. Membro de várias Academias de Letras e outras entidades, escreve artigos sobre Política, História e Cultura.


