O fim da ilusão: nossa ferrovia é turística, não mais popular. | Por: Ricardo M. S. Gonçalves

primavera em campos do jordão

Nasci em Campos do Jordão nos anos 70 e, como quase todo jordanense da minha geração, tenho memórias nítidas de andar de bondinho. O trajeto do Capivari até Abernéssia era, para muitos de nós, o caminho para a escola, o trabalho, o encontro com amigos. A Estrada de Ferro Campos do Jordão fazia parte da nossa rotina. E era mais do que uma atração: era um serviço.

Foto: Sergio Biaggionni

Ao ler as recentes declarações do presidente da Companhia Paulista de Parcerias, Edgard Benozatti, ao jornal O Estado de São Paulo sobre  concessão da ferrovia, senti um misto de entusiasmo e lamento. Entusiasmo por ver o patrimônio histórico sendo recuperado, o turismo ganhando força, e a promessa de R$ 400 milhões em investimentos. Mas lamento ao perceber, com clareza, que a possibilidade de retomarmos o uso cotidiano da EFCJ como transporte coletivo foi oficialmente descartada.

Disse Benozatti: “Haverá também um serviço parador que os usuários podem usar, mas mesmo com as melhorias que vamos fazer, é difícil competir com outros meios de transporte de massa, como os ônibus urbanos.” Pronto. Está dito. A nossa ferrovia será, definitivamente, uma atração turística — e não mais uma opção de mobilidade para quem mora aqui.

É uma escolha. E como toda escolha, tem consequências.

Campos do Jordão é uma cidade que vive em constante dualidade: somos destino de turistas do mundo todo, mas também somos cidade de gente comum, com rotina, com compromissos, com deslocamentos diários. E enquanto o turismo se estrutura — com razão e necessidade —, a vida do morador, muitas vezes, segue sem os mesmos investimentos.

A recuperação da linha entre Campos e Pindamonhangaba é maravilhosa. Que a Maria Fumaça volte a apitar, que os trilhos voltem a brilhar. Mas não podemos fingir que não há uma perda aí: a perda simbólica de um transporte que um dia foi nosso, do povo, da cidade. E que agora será voltado quase exclusivamente aos visitantes.

Não se trata de nostalgia apenas. Trata-se de pensar uma cidade integrada, onde o desenvolvimento turístico caminhe ao lado da qualidade de vida de quem vive aqui o ano inteiro. A EFCJ poderia ser esse elo — e talvez ainda possa, se houver espaço para discussões futuras que nos incluam de verdade.

Por ora, fica a constatação: nossa ferrovia está nos trilhos do progresso turístico. Mas, ao que tudo indica, desceu de vez na estação da utilidade popular.

Ricardo M. S. Gonçalves
Fundador do  Guiacampos.com e um dos
apaixonados por Campos do Jordão

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