Natal em Campos do Jordão, 1994. Por: Benilson Toniolo

Na noite do dia 23 de dezembro, ao contrário do que se esperava, não choveu. 

Saímos de casa por volta das seis da tarde em direção do Capivari, onde haveria uma cantata com os conjuntos de coral da cidade – entre eles, o da Metodista, cujos componentes se apresentavam trajados com um belíssimo conjunto vinho e uma espécie de pelerine branca. 

Homens e mulheres traziam nas mãos suas pastas contendo as partituras com as músicas que cantariam para o público, que já se concentrava defronte à igreja de São Benedito.

A noite era fria, apesar do verão. 

A apresentação dos corais em Capivari durou entre uma hora e meia e duas horas e se constituiu na principal atração do Natal de Campos do Jordão daquele ano.

A manhã do dia 24 presenteou os jordanenses com seu  habitual céu de inigualável, incomparável azul. Na avenida principal, jordanenses e turistas caminhavam sem pressa. Alguns levavam nas mãos o jornal do dia. Casais enamorados percorriam as alamedas arborizadas.  

As malharias de toda a cidade fervilhavam. Em Abernéssia, Jaguaribe e Capivari, turistas se amontoavam em busca dos presentes de última hora – e que presente poderia ser melhor do que uma malha feita pelas mãos dos jordanenses, uma peça linda e colorida, legitimamente produzida e comprada em Campos do Jordão?

Na parte da tarde, um café no Spaghetti Maggiore, ao som do saxofone do Luizinho Lobo, ou um strudel na Bia, seguido de uma passadinha na loja da Malu ou no Casarão da Ana.  

Nos hotéis – Estoril, Toriba, Mont Blanc, Orotour, Leão da Montanha – as equipes de cozinha corriam com os preparativos para a ceia, outros funcionários preparavam a lenha para as lareiras, os últimos retoques dos salões eram concluídos e os recreadores cuidavam das crianças para que os pais pudessem passear, descansar e se preparar para a grande noite de Natal.

Na pequena casa do Jaguaribe, a família jordanense preparara com alegria, durante todo o dia, a ceia natalina.

Por volta das sete da noite, todos os parentes já haviam chegado. Fuscas, Brasílias e Passats eram estacionados na rua da casa – Sebastião de Oliveira Damas, coração da Vila Histórica de Jaguaribe.

Os homens se acomodavam na sala, conversavam e riam. Muito.

As mulheres iam para a cozinha ajudar a matriarca e a irmã mais velha na conclusão dos preparativos e dos pratos. Riam mais ainda. 

As crianças iam para o quarto brincar. As meninas, de boneca e de casinha. Os meninos, de jogo de botão e de carrinho. 

Vez por outra, a mãe de alguma criança recomendava: “não vai se esfregar no chão para não sujar a roupa nova”. Não adiantava. Menos de uma hora depois, as “roupas novas” já estavam sujas, amassadas e molhadas de refrigerante.

A única televisão, a da sala, estava ligada no volume mínimo: ninguém prestava atenção – nem ao jornal, nem à novela que veio depois. 

Às oito, era hora de telefonar para os parentes de longe e desejar feliz Natal. Rio Claro, Itirapina, Brasília, Minas, São Paulo.

Perto das nove, duas visitas inesperadas: amigos de infância do dono da casa, que tinham obtido autorização para sair da cadeia onde cumpriam pena para passar a noite de Natal com suas famílias, encontraram suas casas trancadas e não tinham para onde ir. Bateram palmas no portão da velha casa e nem precisaram dizer o que desejavam.

Ao reconhecer os amigos de tantos anos, seu Zé não teve dúvidas: abriu generosamente o portão, abraçou a ambos e os introduziu pela porta da sala, falando alegremente para a esposa: “Cida, olha só quem veio passar o Natal com a gente!”. A mulher vinha da cozinha, limpando as mãos com o pano de prato que trazia no ombro e saudava os visitantes: “Que bom que vocês vieram, fiquem à vontade, a casa é de vocês, já já vai sair um franguinho”.

Um cumpria pena por homicídio, fruto de uma desinteligência com o filho de um vizinho. Outro, por receptação: sem saber, comprara um aparelho de som que um amigo do filho oferecera por um preço bem baratinho. Ambos condenados pela Justiça. Mas não naquela casa. Ali, eles eram os amigos da família. 

Às dez e meia da noite, começava a abertura dos presentes depositados aos pés da pequena árvore enfeitada de bolas coloridas. Todos se presenteavam. Muitas fotos, abraços, sorrisos.

Presentes entregues, era a hora da preparação para o jantar. 

Antes, porém, havia algo indispensável a ser feito: a oração de agradecimento, que se deu em redor da mesa, quando todos deram as mãos em sinal de respeito e reverência, enquanto Carlos, um dos genros, elevava sua voz em gratidão a Deus em nome de todos.

Durante a oração, os visitantes choraram e foram silenciosamente abraçados por quem estava perto.

Não havia bebidas alcoólicas sobre a mesa – e elas não faziam falta: aquela era uma família religiosa e “temente a Deus”, como se orgulhava em dizer a matriarca.

O dia seguinte seria de trabalho para alguns, empregados em hotéis da estância. Os outros descansariam.

Por volta da uma da manhã, todos se preparavam para ir embora.

Alguns ainda conversavam e se demoravam um pouco mais, de pé, na calçada, fazendo projeções para a temporada de futebol do próximo ano, antes de entrar em seus carros estacionados na rua escura e silenciosa.

Aliás, era o que mais havia, naquela noite de Natal: silêncio. A cidade, recolhida, fazia silêncio.

No dia seguinte as famílias sairiam para passear durante o dia e, à noite, para as missas e os cultos de Natal nas igrejas.

Pouco depois da meia-noite, seu Zé acompanhou os dois visitantes até o portão e deles se despediu: “eu e a Cida ficamos muito felizes de vocês terem vindo passar o Natal com a gente. Se der, venham para o almoço, sobrou bastante comida. Ah, estava esquecendo: esperem um pouquinho que eu vou pedir para ela preparar um pratinho para vocês comerem mais tarde, quando der fome”.

Quando ele voltou, os três se abraçaram e se despediram. 

Seu Zé deu uma olhadinha para o céu para tentar adivinhar como ficaria o tempo no dia seguinte,  encostou o portão e voltou para dentro de casa, pensando em como seria bom tomar um cafezinho antes de ir para a cama para rebater “aquela comidaiada toda, essa Cida é exagerada mesmo”.

Na escura e silenciosa rua de Jaguaribe, os dois visitantes saíram caminhando e conversando no sentido da vila Sodipe, cada um com seu potinho de comida embrulhado em uma sacola plástica.

Algumas horas depois, cada um em sua cama, agradecidos e exaustos, os velhos donos da pequena casa dormiam. 

A noite santa, que celebra e rememora a chegada do Menino, havia mais uma vez se consumado.

 

Benilson Toniolo, professor, escritor, historiador e gestor público, atua como consultor da AME Cultura (Agência Mineira de Entretenimento) em projetos do Sebrae para efetivação de políticas públicas de Cultura em diversos municípios brasileiros. Membro de várias Academias de Letras e outras entidades, escreve artigos sobre Política, História e Cultura.

 

 

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