Nelson Proença e os cartazes do Festival de Inverno. | Por: Benilson Toniolo

Dia desses, no grupo de mensagens da nossa Academia de Letras, o historiador Edmundo Ferreira da Rocha perguntou se alguém tinha alguma informação ou notícia sobre o acadêmico Nelson Guimarães Proença, nosso confrade e amigo, que deixou muita saudade em todos nós quando vendeu sua propriedade e se transferiu definitivamente para São Paulo.

Ninguém tinha informação nenhuma, mas bastou um simples contato com o filho, o tradutor e poeta Ruy Proença, para sermos rapidamente informados que aos 93 anos (completados em maio), nosso amigo está saudável, forte, com boa memória, lúcido e ativo, fazendo inclusive pequenas caminhadas diárias pelo condomínio em que reside. Celebramos, claro, que é o que fazem os amigos quando descobrem que alguém que nos é caro, depois de muito tempo sem dar notícias, goza de boa saúde e segue a vida com todas as maravilhas e percalços de que ela é composta.

A história de Nelson Proença com Campos do Jordão é digna de registro. Da aversão inicial, justificada em razão do trauma da doença que abreviou a vida de sua mãe, ainda jovem, ao pleno maravilhamento a que foi acometido quando aqui chegou, conduzido (literalmente) pelas mãos da esposa Ivone, Nelson é um apaixonado confesso pela cidade. Em sua bela propriedade, a fazenda dos Marmelos, ele cultivou durante décadas o amor pela vida, pela cultura, pela natureza, pelas amizades, pelos desafios da luta política e pela família.

Referência internacional na área da dermatologia, tendo sido presidente da Sociedade Brasileira da especialidade, escritor memorialista, militante político e combativo vereador na cidade de São Paulo, Nelson Proença faz parte da Academia de Letras de Campos do Jordão, para onde levou sua celebrada loquacidade, sua inteligência e imensa contribuição, sempre na defesa da cultura e dos princípios básicos de civilidade e convivência pacífica.

“Radicalmente democrata”, como sempre se definiu, marcou sua passagem por nossa cidade pela maneira respeitosa e gentil com que recebia a todas as pessoas com quem conviveu, fosse em seu consultório na Galeria Prudência, pelos cafés, pelas calçadas e praças de vila Abernéssia, pelos teatros, parques e auditórios que sempre gostou tanto de frequentar.

Uma de suas paixões sempre foi o Festival de Inverno de Campos do Jordão. Aguardava ansiosamente o anúncio da programação, era dos primeiros a adquirir os ingressos para o concerto de abertura e, como todo apaixonado, fazia questão de colecionar tudo o que dissesse respeito ao objeto de sua devoção. Matérias de jornais e revistas, fitas de vídeos, discos, ingressos, catálogos, programas, impressos diversos e, com especial dedicação e cuidado, os estupendos cartazes, que ele dependurava no corredor da escada que levava ao segundo andar de sua casa jordanense.
Ao longo de sua vida, Nelson Proença colecionou e guardou com zelo todos os cartazes de divulgação do Festival de Inverno de Campos do Jordão. Sabia a história por trás da criação de cada um e, a partir deles, construía uma narrativa detalhada e apaixonada não só da composição da peça, como também dos principais acontecimentos da edição a que ela correspondia.

Passear pelo corredor de sua casa observando os cartazes era um dos grandes privilégios de quem, como eu, teve o privilégio de privar da amizade com o ilustre médico, que chamava nossa atenção para os detalhes em cada peça, as curvas sinuosas do desenho que saíam de um violino ou de uma pauta para se transformar, mais adiante, em uma escarpa de montanha ou no contorno de uma nuvem; os braços suspensos da figura do maestro que, mais à frente, se uniam à copa de uma araucária em um movimento delicado e discreto que somente os apaixonados como ele podem identificar, com tamanha graça e encantamento, e compartilhar essa beleza com os demais.

Proença contou certa vez que, à época da gestão de secretários de Estado da Cultura como Marcos Mendonça, o governo do Estado promovia grandes concursos dirigidos a artistas de todo o Brasil para que eles produzissem a arte oficial do festival de inverno, sempre pautada na simbiose entre as imagens que remetiam à música erudita e a Campos do Jordão – com seus pinheiros, seus montes, sua paisagem e suas incontáveis belezas. O vencedor, além da premiação, teria a grande alegria de ver seu desenho estampado nos cartazes, programações e outros materiais de divulgação daquele que ficou conhecido como “o maior festival de música erudita da América Latina”.

Nos seus últimos anos de residência serrana, diante do surgimento dos cartazes abstratos elaborados pela computação gráfica, que substituíram os desenhos “à mão livre” por artistas de renome, e diante também da ausência de elementos jordanenses nas artes dos festivais mais recentes, Proença manifestava seu descontentamento ao apontar o dedo para os materiais de divulgação instalados pela cidade durante as temporadas de julho: “falta Campos do Jordão aqui”, dizia ele, em tom de lamento e desconsolo. “Não é mais o nosso festival”, afirmou algumas vezes, enfatizando o pronome possessivo.

Assistir a um concerto ao seu lado se constituiu em uma experiência inesquecível. Todo sentimento, ele franzia as sobrancelhas, apertava ou arregalava os olhos, esfregava as mãos, mudava de posição na cadeira, gestos expansivos ou contidos que acompanhavam as notas e os acordes dos movimentos interpretados pelo maestro e pela orquestra no palco sagrado do Auditório. Ao final, como um torcedor de futebol dos mais fanáticos, erguia os punhos, soltava a voz com gritos de “bravo” que ecoavam por todo o local, aplaudia efusivamente, chegava mesmo a abraçar que, estava ao seu lado, de puro contentamento. Depois saía, com a mesma discrição com que havia entrado, cumprimentando aqui e ali os amigos e conhecidos e comentando como havia sido magnífica a apresentação.

Tão logo foi concluída a venda da propriedade em Tabatinga, antes do seu definitivo retorno para a capital, Nelson Proença organizou uma exposição dos seus valiosos cartazes em um prédio comercial de Abernéssia, entregando-os depois em doação para o Auditório Claudio Santoro, deixando uma cópia do cartaz da primeira edição, em 1970, para a Secretaria Municipal de Valorização da Cultura, para quem direcionou também parte de sua biblioteca particular.

O nonagenário Nelson Guimarães Proença está bem, gozando da saúde que lhe é possível, do conforto e dos cuidados dos familiares e da situação financeira estável que construiu com muito trabalho ao longo de toda a vida. Mas como faz falta, para todos nós, sua figura serena, amiga, séria e disposta pelas alamedas desta nossa cidade, atendendo aos seus pacientes, acompanhando os páreos do Jockey – outra de suas paixões -, abraçando os amigos e conhecidos, fazendo comentários políticos sagazes e certeiros e falando da saudade de sua doce Ivone – sempre relembrada por meio de uma lágrima de amor e de ternura.

Mesmo não estando fisicamente em nossa cidade, é como se sentíssemos sempre aqui a sua presença amiga, inteligente e fraterna, principalmente nesta época, quando os acordes do Festival de Inverno se levantam sobre a cidade.

É bom saber que está bem.
É bom saber que o temos por perto.

Benilson Toniolo, professor, escritor e historiador, foi Secretário Municipal de Valorização da Cultura de Campos do Jordão (2013-2024) e atua como consultor do Sebrae para efetivação de políticas públicas de Cultura em doze municípios brasileiros. Membro de diversas Academias de Letras e outras entidades culturais, escreve artigos sobre Política, História e Cultura.

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