Opinião: Eu, Campos do Jordão.

Por: Dulce Martinez

Quando vejo os helicópteros pousando e decolando, as mansões e jardins, os carros elegantes, os hotéis e restaurantes em suas capacidades máximas eu reflito: eles passarão.

Observando os excursionistas em compras, os turistas aglomerados em postagens e cliques histéricos, as ruas congestionadas, penso: todos irão embora.

Todos irão me deixar. Assim como no passado, de uma forma ou de outra, todos irão embora.

Os bandeirantes que por aqui passaram, com o ouro das Minas Gerais, se foram. Aquele que me recebeu em sesmaria e hipotecou-me ao Brigadeiro Jordão, vendeu o gado, vendeu a fazenda e se foi.

Os acometidos pela peste branca me encontraram. Muitos jovens, brilhantes, chegavam até aqui procurando positivamente parecer tuberculosos, como se a delicadeza e um tênue domínio da vida os tornassem ainda mais atraentes. Havia uma crença romântica e generalizada de que a doença era mais comum à constituição terna e sensível dos artistas. Cinturas minúsculas, clavículas visíveis, bochechas rosadas. Mas seus corpos pálidos, febris e ofegantes não raro tornavam-se sombras de si mesmos, deixando nos lenços e lençóis as rubras manchas de sangue e o amarelado escarro.

Os doutores me recomendavam pelos meus predicados saudáveis; fui comparada a elegantes destinos europeus. Esperava-se que o meu clima operasse milagres. Acreditava-se que a rarefação do meu ar obrigaria os pulmões a uma ginástica salutar e a tuberculose definharia. Boa alimentação, repouso e isolamento na montanha, recomendavam. Cura, mas não para todos.

Eu me transformei em uma cidade sanatório, com doentes espalhados em grandes solários nas enfermarias dos hospitais, semi-eretos em espreguiçadeiras, enrolados como múmias em um cruzeiro marítimo. Os amigos, amores, membros da família desapareciam por longos períodos. Éramos eu e eles, os tísicos.

Abriguei muita gente. Pessoas abastadas; doentes paupérrimos que tantas vezes aqui chegavam já em último estágio para morrer no pátio da estação de trem. Antes da ferrovia não existia estrada, apenas caminhos e picadas pelos paredões íngremes da Mantiqueira. Troles, cavalos, mulas e liteiras circulavam pelas minhas ruas, trazendo doentes e levando os corpos.

A ciência evoluiu, veio a cura e passei a receber a alegria dos turistas. Tantos ainda desconhecem o meu passado… Há quem pense que já nasci assim, festiva e elegante. Ou que fui uma cidade de mortes, tristezas e lágrimas. Eu prefiro acreditar que fui esperança e cura.

Minha paisagem invernal ainda encanta. Após noites frias, a temperatura se eleva lentamente e aquece o dia, tornando o ar leve e transparente, formando um céu de azul intenso. Sou uma cidade isolada, fora do tempo, de onde ainda quase todos se vão. Quase. Milhares se deixaram ficar em cinzas e memórias. Outros vieram e aqui continuaram para, em tempos mais suaves, receber, alimentar e acolher.

 

Dulce Martinez
Especialista em turismo de luxo, jordanense de coração e mais uma das apaixonadas por Campos do Jordão.

 

 

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