Tubarão e os vitrais da Santa Casa. | Por: Benilson Toniolo

“O que viram os Vitrais da Santa Casa?”

Luiz Pereira Moysés, Jornal Regional, 2017

Todas as cidades têm suas chagas, aquelas fissuras que, uma vez abertas, não deixam de sangrar sobre o tecido social, mesmo com a passagem do tempo. Maiores ou menores, antigas ou novíssimas, todas levam suas marcas de fatos e eventos que ficam gravadas na pele das cidades como cicatrizes a lembrar por longo tempo aquilo que se perdeu e, uma vez perdido, não há o que possa reparar.

Campos do Jordão também tem as suas, e a maior delas tem nome e sobrenome: chama-se Santa Casa.

Não há jordanense, nascido ou adotado, que não lamente o desaparecimento dessa edificação, cuja folha de serviços prestados ao longo de sua trajetória de mais de seis décadas, simbolizou um tempo em que a saúde pública municipal se constituía em um dos orgulhos locais.

Não se trata de mero saudosismo: quem é daqui sabe que, se houve uma entidade confiável na cidade, esta foi a Maternidade, depois Santa Casa dr. Adhemar de Barros, localizada no coração de Vila Abernéssia, de portas e portões sempre abertos, construída na primeira metade da década de 1940 em terreno doado por João Rodrigues da Silva, o João Maquinista – “para construção de uma maternidade exclusiva para mulheres”, fez enfatizar no termo de doação. Destruída por terrível incêndio apenas dois anos depois de inaugurada, foi reerguida por ordem expressa do então interventor Adhemar de Barros, que delegou ao construtor Floriano Rodrigues Pinheiro tal responsabilidade.

Faço essa digressão, importante e necessária, para me referir ao assunto que traz essa crônica.

No ano de 2017, todos já sabíamos o terrível fim que estava destinado à Santa Casa: o desaparecimento total, com a devida demolição do que havia sobrado do prédio, como se fosse possível extinguir da memória coletiva a existência de um hospital que tantos serviços prestou ao povo enquanto esteve de pé.

Pois em uma determinada manhã desse mesmo ano fui procurado, na sede da Secretaria de Cultura, pelo artista plástico Luiz Pereira Moysés, o Tubarão, para tratar de um assunto, segundo ele, de grande importância. Até aí, pensei, novidade nenhuma: Tubarão era visita quase diária, e sempre trazendo um “assunto muito importante” na ponta da língua e, quase sempre, com um plano de ação mais ou menos já desenhado na cabeça.

Naquele dia, entretanto, o assunto era dos mais delicados: diante da informação de que a venda do terreno onde havia funcionado a Santa Casa estava praticamente acertada e que o que havia sobrado da edificação seria demolido – como realmente foi -, era necessário, segundo ele, “salvar os vitrais históricos” instalados na parte superior do que ainda restava do prédio.

Fizemos, eu, Tubarão e Abrão – uma espécie de “Sancho Pança” do nosso cavaleiro andante jordanense na luta contra esse imenso moinho – uma visita ao local, constatamos que os vitrais existiam e estavam intactos e o velho Tuba, como o chamávamos, encarregou-se de tudo: fez contato com o então proprietário do imóvel, obteve autorização judicial para retirar os vitrais, um retratando São José e outro, Nossa Senhora, conseguiu alguém para retirá-los, sem gerar danos e de graça, amealhou junto a onze doadores o valor de três mil reais pedidos pelo proprietário, que depositou em juízo, combinou com o padre José Rosa a entrega dos vitrais para o acervo da igreja Nossa Senhora da Saúde e avisou a imprensa – o jornal Regional, de Jurandir Cosmos, foi o único a ceder espaço para a ação.

Não que eu soubesse de todas essas providências com antecedência. Pelo contrário. Soube depois, quando, passado algum tempo de nossa visita, Tubarão me ligou: “vamos lá buscar os vitrais e entregar ao padre José?”. “Como você conseguiu?”, perguntei. “No carro eu te explico. Vamos, que estão nos esperando”.

Tarefa cumprida, Tubarão, de gestos discretos e imensos, escreveu à época uma crônica belíssima sobre esse resgate, que quase ninguém leu. Passou, como passam, passaram e passarão as coisas grandes e as pequenas que constituem a vida das pessoas e a vida das cidades.

E foi esse texto publicado no jornal da época que encontrei, ao acaso, enquanto organizava alguns papeis na minha biblioteca. Denominado “O Que Viram os Vitrais da Santa Casa”, nosso artista – um dos maiores de nossa História – narra com inesperada poesia a trajetória dos vitrais da Santa Casa que ele, num ato quase solitário mas de grande significado, salvou da aniquilação e do extermínio inapelável: os vitrais que testemunharam a abertura dessa grande chaga jordanense – arrisco dizer, como já disse, a maior delas.

A Santa Casa de Campos do Jordão, como a conhecemos, não existe mais: o que ainda estava de pé foi demolido pelos novos proprietários há alguns meses para a construção, dizem, de um condomínio. Ou de mais um hotel, quem sabe? Mas os vitrais que testemunharam sua história estão intactos, preservados em sua totalidade, graças a um cidadão que, de dentro de sua casa e sem precisar exercer cargo público algum para tomar tal atitude, decidiu tomar partido contra a indiferença generalizada.

Talvez seja este o significado, prático e nada retórico, do verdadeiro sentido da palavra “cidadania”.

Nosso velho artista, como sabemos todos, nos deixou há pouco, e era preciso relembrar um dos seus grandes atos em favor da nossa cultura, que passou despercebido.

Era esta a história. Era preciso contá-la.

 

Benilson Toniolo
foi Secretário Municipal de Cultura
de  Campos do Jordão é escritor premiado
e membro de diversas academias de letras

 

 

 

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