“Tudo mudou quando a luz apagou”: O comovente relato de uma moradora após quase 100 horas sem energia em Campos do Jordão

Moradora da Vila Inglesa narra como atravessa quase 100 horas sem eletricidade, entre perdas, silêncio forçado e indignação

Eram quase 20h30 da terça-feira, 9 de dezembro, quando a energia acabou na casa de Fernanda, moradora da Vila Inglesa, em Campos do Jordão. Ela havia acabado de sair do banho e jantava. No primeiro momento, acreditou que seria mais um apagão passageiro, como tantos outros que acontecem quando chove e venta. Imaginou que a luz voltaria durante a madrugada, como de costume. Desta vez, não voltou.

O que chamou sua atenção logo no início foi o fato de nem mesmo a chamada “meia fase” permanecer ativa. “Normalmente, ao menos a geladeira e o wi-fi seguem funcionando.” Não foi o caso. Ainda assim, Fernanda não imaginava que aquele momento marcaria o início de uma longa travessia no escuro.

Na manhã seguinte, já sem energia havia quase 12 horas, entrou em contato com a concessionária. Recebeu a informação de que uma equipe chegaria entre 8h30 e 10h30, prazo que considerou razoável diante das notícias sobre os estragos causados pelo ciclone extratropical na cidade. A equipe não apareceu. Com o passar das horas, começou a reorganizar a própria rotina para enfrentar um cenário que se tornava cada vez mais incerto.

Fernanda passou a pensar em tudo: nos alimentos, na água quente ainda armazenada no boiler, na segurança da cidade e nas áreas mais vulneráveis. Decidiu não tomar banho pela manhã para guardar a água quente para a noite. Pequenas decisões passaram a ter grande peso. Como síndica do condomínio onde mora, manteve contato constante com a zeladora, acompanhando a situação do prédio, das geladeiras dos apartamentos e repassando informações aos moradores.

Com a bateria do celular acabando, chuva persistente e notícias de quedas de árvores na região, optou por não sair de casa. Avisou a família de que ficaria sem contato. No mesmo período, parte do telhado da área das garagens do condomínio foi danificada, exigindo providências emergenciais.

O primeiro dia sem energia mudou completamente sua rotina. Fernanda passou a gerenciar o tempo com base na luz do dia. Cozinhou os alimentos congelados que começavam a descongelar, tentando evitar perdas maiores. Carregou o celular no carro para avisar familiares e acompanhar, como podia, as informações da cidade.

A gravidade da situação ficou clara quando percebeu que bairros próximos começaram a ter a energia restabelecida, enquanto sua região permanecia às escuras. Novas previsões foram dadas e não cumpridas. Ao meio-dia da quinta-feira, já eram cerca de 40 horas sem luz. Agora, o tempo se aproxima da marca simbólica de 100 horas.

Sem energia, Fernanda passou a dormir mais cedo e acordar mais cedo, seguindo o ritmo da claridade. O silêncio tomou conta da casa. Trabalhar remotamente se tornou impossível. Reuniões foram perdidas, assim como um webinar da Organização Pan-Americana da Saúde. O banho passou a ser improvisado, com água aquecida manualmente e armazenada em garrafas térmicas. O forno elétrico inutilizado dificultou ainda mais o preparo das refeições.

As perdas na geladeira e no freezer foram inevitáveis. Peixes, carne de porco, queijos, massa folhada e itens já comprados para a ceia de Natal acabaram no lixo. O prejuízo financeiro veio junto, com a necessidade de novas compras.

O que mais dói é a sensação de impotência e a indignação com a falta de respeito com a população. É inaceitável ter de jogar alimento no lixo por falta de um serviço básico”, desabafa Fernanda.

Ao longo dos dias, os sentimentos se transformaram. Ela se considera resiliente, mas vive um luto recente pela perda do companheiro. Estar sozinha, no escuro e sem comunicação ampliou a ansiedade. Para manter o equilíbrio emocional, passou a economizar a bateria do celular para ouvir ensinamentos do seu mestre budista, buscando preservar a saúde emocional e física.

Fernanda não relata medo nem cansaço, mas tristeza profunda e perplexidade diante do que considera descaso. Questiona se quem decide também enfrenta dias sem energia, perde alimentos ou fica sem um banho quente. Para ela, nada do que está acontecendo é surpresa: episódios assim se repetem todos os anos no período de chuvas.

A ajuda veio em gestos simples: um banho oferecido pela conhecida proprietária de uma pousada, o apoio dos primos que abriram a casa para carregar equipamentos e cozinhar, e a atenção constante da zeladora do condomínio. Um momento marcante foi o pedido de desculpas de um técnico da concessionária que esteve no local sozinho após mais de 60 horas sem energia, sem equipe suficiente para resolver o problema.

A experiência trouxe reflexões duras. Fernanda passou a estudar a compra de um gerador individual para sua casa, um investimento que considera absurdo diante dos impostos pagos e do valor da conta de energia, mas que vê como única alternativa para evitar que tudo se repita.

“O que eu sinto é uma imensa tristeza e perplexidade com a falta de respeito com a população, com o outro.”

Ao se aproximar das 100 horas sem luz, ela resume o sentimento em uma palavra: tristeza. Tristeza pelo desrespeito, pela falta de empatia e pela ausência de senso de urgência.

Para Fernanda, quando a luz apagou, não foi apenas a energia que faltou. Foi a sensação de segurança, de previsibilidade e de respeito. E isso, segundo ela, é o que mais demora a voltar.


Nota do editor: Desde as 20h30 do dia 9 de dezembro, quando a energia elétrica foi interrompida, já se passaram mais de 96 horas. Até o fechamento desta matéria, a Sra. Fernanda e muitas outras pessoas em Campos do Jordão seguiam sem energia elétrica em suas residências e sem qualquer previsão confiável de restabelecimento. O tempo passa, os prejuízos se acumulam e a sensação que permanece é a de despreparo dos responsáveis diante de um fenômeno climático que pelo que tudo indica será cada vez mais comum.

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