“A gente ama não é a pessoa que fala bonito. É a pessoa que escuta bonito.”
– Rubem Alves
Não há nada mais humano do que a necessidade de compartilhar. Quando vivemos momentos bons ou ruins, sentimos vontade de dividir essas experiências com alguém — conversar, postar nas redes sociais, contar na terapia, mandar um áudio cheio de detalhes no grupo de amigos… Parece que, só quando compartilhamos, a vivência se torna realmente concreta. E isso não acontece por acaso: somos seres relacionais, e estar em contato com o outro é tão essencial quanto beber água.
Adoramos falar, mas esquecemos que toda fala pressupõe justamente uma escuta. A escuta é esse espaço para o compartilhamento, onde a fala se aloja e busca reverberações, efeitos, transformações. Desejamos a escuta, mas parece que manifestamos muito mais a nossa necessidade de recebê-la do que reconhecemos a nossa responsabilidade de oferecê-la.
Escutar não é algo que a gente nasce sabendo fazer, não é um reflexo automático. Ao contrário, exige atenção, silêncio e uma boa dose de entrega. Para poder oferecer isso, precisamos nos despir de nós mesmos e nos deixar vestir pelas palavras do outro.
“Ah, então, mas eu….”
Repare como é comum ouvirmos o outro já nos preparando para o que vamos dizer em seguida. Às vezes, ficamos só esperando uma brecha, um respiro na fala, para introduzir nosso comentário, opinião ou algo pessoal relacionado. No fundo, muitas vezes usamos o que ouvimos apenas como uma ponte para atravessar nossas próprias vivências — a fala do outro vira só um cenário para nossa história.
Em outras situações, tomamos o que ouvimos como algo para contrastar com nossas próprias experiências, em vez de apenas acompanhar a narrativa do outro. Quando fazemos isso, a escuta desaparece, e o que restam são apenas duas falas que se alternam, sem realmente se encontrar.
Também não somos muito bons em sustentar silêncios. Lembra qual foi a última vez em que você ouviu alguém e apenas ficou em silêncio, esperando a pessoa continuar no tempo dela? E você já se flagrou falando pelos cotovelos, com um palavreado abundante que ou não diz nada, ou é pura repetição?
Silêncios são momentos tão potentes, mas temos esse hábito de aniquilá-los. Fazemos isso por ansiedade, por necessidade de dar respostas, para aplacar a angústia do outro, por uma mania de comparação (lembra quando falamos disso aqui?) ou, talvez, por sentir um certo tédio nos breves instantes em que a palavra sai de cena.
Seja qual for o motivo, a dificuldade de sustentar silêncios revela algo maior: a dificuldade de sustentar a alteridade. De permanecer com o outro quando ele não nos espelha, quando apresenta algo que não é sobre nós.
Quando escutamos mal, acontece uma espécie de abandono do outro. Pense nas vezes em que você quis muito compartilhar algo importante com alguém e se sentiu falando com as paredes, atropelado por opiniões carregadas de julgamentos, preso num monólogo ou virando coadjuvante numa história em que você era o protagonista.
Quando somos mal escutados, sentimos uma grande frustração. Mas, curiosamente, essas más experiências nem sempre nos ensinam a escutar melhor. Muitas vezes incorremos no mesmo erro do qual nos queixamos.
Saber ofertar o que desejamos receber
Escutar com atenção é um dos gestos relacionais mais potentes e bonitos. É um ato ético deixar nosso ego de lado e conseguir generosamente dar lugar ao outro. Os efeitos de uma boa escuta podem ser transformadores, pois é quando nos sentimos realmente ouvidos que também conseguimos dar ouvido a nós mesmos, às nossas dores, às nossas questões. Receber acolhimento ajuda a nos acolhermos. E, ao contrário do que muita gente pensa, não é preciso nenhuma técnica especial para isso.
Basta se interessar de verdade pelo outro.
Se receber isso é bom, também precisamos aprender a ofertar.
Escutar sem pressa.
Escutar enxergando quem fala.
Escutar sem querer tomar o lugar do outro.
Escutar sem transformar tudo numa comparação.
Escutar como quem se dispõe a estar ali, inteiro.
É preciso escutar para poder ser ouvido.
Quem dá o primeiro passo?
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A gente vai fazer uma pausa para as férias e voltamos em setembro! Até lá!

Erika Faria ([email protected]) e
Cezar Perini ([email protected])
são psicólogos e psicanalistas,
moradores de Campos do Jordão


