Malvinas: Entre a guerra, o oceano e a bola. Por: Benilson Toniolo.

A cada quatro anos, a realização de mais uma Copa do Mundo de Futebol gera, se o chaveamento dos grupos permitir, a possibilidade de uma partida recheada de atrativos históricos: um eventual confronto entre Argentina e Inglaterra, duas nações separadas pelo Atlântico, mas unidas por um dos mais antigos litígios territoriais da História.

Para os argentinos, são as Ilhas Malvinas. Para os ingleses, as Falkland Islands.

Na última semana, as duas equipes voltaram a se enfrentar em uma partida épica, daquelas que ficam na memória e na retina dos aficionados. Vitória dos sul-americanos, de virada, nos minutos finais. 

Há quarenta anos, na Copa de 1986, no México, o mito de Diego Armando Maradona ganhou contornos definitivos justamente em uma partida contra os britânicos.

Quem acompanha futebol conhece essa história. Alguns afortunados, como  eu, assistiram pela televisão. O primeiro gol entrou para a história como “la mano de Dios“. Ao disputar a bola com o goleiro inglês Peter Shilton, Maradona levantou discretamente a mão esquerda e desviou a bola para as redes sem que a arbitragem percebesse a irregularidade. Shilton ainda alertou a arbitragem, mas em tempos em que a tecnologia do VAR ainda habitava o reino do inimaginável, de nada adiantou.

Poucos minutos depois, veio aquele que muitos consideram o mais belo gol da história das Copas do Mundo. Maradona recebeu a bola ainda no campo argentino, pouco antes da linha divisória central, atravessou o meio-campo em velocidade, deixou sucessivos adversários para trás como se a bola estivesse colada aos seus pés e só parou quando venceu novamente o goleiro inglês.

A partir dali, não se tratava mais apenas do atleta Maradona: era o próprio “D10s”, que lançou mão do seu incrível talento e da irreverência que marcaram sua carreira (pelo menos a futebolística) para garantir a vitória de sua equipe e a eliminação dos rivais da competição.

Para grande parte dos argentinos, aquela vitória representou uma espécie de revanche simbólica pela derrota sofrida na Guerra das Malvinas e pela longa disputa em torno da soberania do arquipélago.

No meu livro “O Sol de Galeano – Histórias da América Latina”, fiz um pequeno resumo daquele conflito, e gostaria de compartilhar parte dessa reflexão para compreendermos melhor um episódio histórico cujos desdobramentos permanecem vivos até hoje.

O arquipélago das Malvinas, localizado no Atlântico Sul, aparece em registros de navegadores europeus desde o século XVI. Ao longo dos séculos seguintes, passou pelo domínio colonial espanhol graças à descoberta atribuída ao explorador Fernão de Magalhães.

Após a independência, a Argentina passou a exercer administração sobre as ilhas e, em 1820, incorporou o arquipélago às Províncias Unidas do Rio da Prata, com anuência dos ibéricos.

Em 1833, forças britânicas invadiram e assumiram o controle das ilhas por meio de uma ação militar, iniciando uma administração que permanece até os dias atuais. Desde então, a Argentina reivindica a soberania sobre o arquipélago, enquanto o Reino Unido sustenta a legitimidade de sua ocupação.

Em 1965, a Organização das Nações Unidas aprovou a Resolução 2065, recomendando que os dois países iniciassem negociações para uma solução pacífica da controvérsia. Apesar de diversas tentativas diplomáticas, um acordo jamais foi alcançado.

No início de 1982, a Argentina vivia uma grave crise econômica e política em meio ao auge da ditadura militar. Grandes manifestações populares tomavam as ruas de Buenos Aires a partir da Praça de Maio e, em meio à crescente perda de apoio popular, o presidente da República, general Leopoldo Galtieri, procurou desviar o foco das manifestações  determinando a reocupação das Malvinas pelas Forças Armadas.

A reação britânica foi imediata. Sob a liderança da primeira-ministra Margaret Thatcher, o Reino Unido enviou uma poderosa força-tarefa naval para retomar o arquipélago.

Após 74 dias de intensos combates navais, terrestres e aéreos, a guerra terminou em junho de 1982 com a rendição argentina.

O conflito deixou 907 mortos: 649 argentinos, 255 britânicos e três civis habitantes das ilhas.

A derrota abriu uma profunda ferida no orgulho nacional argentino, transformando as Malvinas em um dos maiores símbolos da identidade do país. Até hoje, governos de diferentes orientações políticas, tanto de direita quanto de esquerda, recorrem ao tema como elemento de afirmação nacional.

Em fevereiro de 2013, um referendo realizado entre os habitantes do arquipélago revelou que 99,8% dos votantes desejavam permanecer como território britânico ultramarino. A Argentina, entretanto, continua defendendo que a questão da soberania deve ser resolvida por meio de negociações entre os dois países, conforme recomendado pelas Nações Unidas.

A derrota militar acelerou o fim da ditadura argentina. Pouco mais de um ano depois da guerra, o país voltou à democracia com a eleição de Raúl Alfonsín, encerrando um dos períodos mais autoritários de sua história.

No Reino Unido, o resultado produziu efeito oposto. A vitória fortaleceu politicamente a primeira-ministra Margaret Thatcher, cuja popularidade cresceu significativamente e garantiu sua reeleição em 1983.

Assim, um mesmo conflito produziu consequências completamente distintas nos dois lados do Atlântico.

Ao eliminar a Inglaterra na Copa do Mundo de 1986, apenas quatro anos após a guerra, Maradona tornou-se definitivamente um herói nacional e o principal símbolo da luta contra os ingleses – não por apagar as cicatrizes do conflito, mas por oferecer aos argentinos uma vitória simbólica diante de um adversário que carregava um enorme peso histórico e de capacidade bélica muito superior.

Mais de quatro décadas depois, cada novo encontro entre Argentina e Inglaterra continua despertando emoções que ultrapassam o esporte.

É um lembrete de que a História nem sempre reside unicamente nos livros. 

Muitas vezes ela reaparece nos gramados, nas arquibancadas e, sobretudo, na memória dos povos. E no imaginário das pessoas.

 

Benilson Toniolo, professor, escritor, historiador e gestor público, atua como consultor da AME Cultura (Agência Mineira de Entretenimento) em projetos do Sebrae para efetivação de políticas públicas de Cultura em diversos municípios brasileiros. Membro de várias Academias de Letras e outras entidades, escreve artigos sobre Política, História e Cultura.

 

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