Há pouco mais de um ano, a Universidade de São Paulo, laconicamente, comunicou ao Museu Casa da Xilogravura que abria mão do direito de receber o acervo e o imóvel pertencentes à entidade em Campos do Jordão, abandonando unilateralmente o acordo estabelecido há cerca de vinte anos com o professor Antonio Fernando Costella, idealizador e mantenedor do Museu, além de ter sido membro do rol de educadores daquela entidade durante sua vida profissional.
Uma atitude indigna e reacionária daquela que há décadas era reconhecida como a “universidade-modelo” da América Latina. Talvez não seja por acaso que, atualmente, ocupe o terceiro lugar nos níveis de qualidade de ensino entre as universidades do continente, atrás de instituições do México e do Chile. Eh, estado de São Paulo… quem te viu, quem te vê.
Campos do Jordão reagiu. Quem poderia imaginar que uma entidade do porte da USP teria uma atitude tão infame e desrespeitosa? A Academia de Letras local tornou pública uma importante Carta de Apoio à causa e quase duas centenas de pessoas se reuniram para um abraço simbólico ao prédio, ocorrido no histórico dia 02 de março de 2024, numa tarde linda de sábado de fim de verão.
De lá para cá, o Museu tomou uma importante decisão: a criação de uma Fundação, em fase final de constituição jurídica e que já se revela fundamental para sua continuidade em terras jordanenses e sua permanência como elemento cultural fundamental da defesa e representatividade artística brasileira e internacional não só na arte da gravura como também de outras modalidades artísticas – como a literatura, por exemplo.
A pergunta que fica desse episódio é a seguinte: diante do encaminhamento da solução dessa crise que foi instalada no ano passado, graças à atuação firme da direção da Casa da Xilo, quais os outros desafios que a cidade de Campos do Jordão enfrenta na defesa do seu patrimônio cultural? Quem, afinal, está cuidando desse assunto?
Que fique claro: quando falo “cultural” me refiro a todos os elementos que compõem esse conceito de Cultura que a gente tem abordado com bastante frequência aqui neste espaço. Quando trato de “patrimônio cultural”, quero incluir aí o arquitetônico, o artístico, o natural, o paisagístico, o turístico, o histórico, o geográfico, gastronômico, os saberes, fazeres, hábitos e tradições, as festas populares – inclusive as religiosas, das “três igrejas” -, as manifestações de linguagem, as lendas, a literatura que já se produziu e nos serve de guia e referência e tudo aquilo que engloba nossa condição.
Ressalto: não estou falando que a defesa de todo esse patrimônio seja responsabilidade exclusiva do poder público – não me arrumem confusão. Temos que parar com essa mania, e essa espécie de “tradição” que trazemos do adhemarismo e do malufismo, que aqui criaram núcleos de seguidores fieis e subservientes, de achar que tudo é responsabilidade da prefeitura e do governo do Estado – porque não é.
A prefeitura, claro está, faz o que pode, do jeito que pode e de acordo com suas prioridades, que nem sempre são as nossas. Não. A defesa prática do patrimônio cultural jordanense – e de todas as outras cidades, é bom que se diga – deve ser uma demanda popular, preferencialmente de iniciativa comunitária e nascida no seio da sociedade civil, onde devem caber todos os desejos e necessidades inerentes ao assunto. Além do mais, se contar com o poder público fosse suficiente, a USP não tinha feito a presepada que fez.
Motivos recentes para preocupação quanto a esse assunto temos diversos, infelizmente.
O corte abrupto, volumoso e inesperado de alguns dos nossos indivíduos arbóreos, sobretudo os nativos, em plena luz do dia e sem justificativa convincente, que atualmente testemunhamos diariamente pela cidade, é um sinal claro de que algo pode estar se quebrando na defesa do patrimônio natural.
O mesmo podemos entender quando nos deparamos com a chegada de “atrações turísticas” que, sob uma espécie de “manto sagrado” que justifica tudo que seja feito em nome da principal atividade econômica do município, permite que sejam instaladas edificações de gosto duvidoso que não apenas agridem o patrimônio visual e paisagístico como geram incômodo e perda significativa de nossa identidade arquitetônica.
Cá entre nós e, por favor, não me levem a mal os que pensam de maneira contrária: que tipo de contribuição para a cultura do município pode haver em uma casa colocada “de cabeça pra baixo” na entrada do nosso centro turístico? Tudo é permitido em nome do crescimento econômico, inclusive o que é bizarro, estranho e de mau gosto, que ignora e dá as costas para nossa identidade, cuja construção se dá há mais de 150 anos? Não pode. Já não chega o que fizeram, e ainda fazem, do Morro do Elefante?
São intervenções que acontecem a todo instante e que, muitas vezes, passam despercebidas e – o que é pior – começam a ser vistas com uma indiferença e naturalidade perigosas por cada e cada uma de nós. Certas ações que nos são impostas devem ser objeto de questionamento por todos aqueles que se ocupam, e se preocupam, da defesa do nosso acervo cultural, que é riquíssimo. E essas inovações aos poucos vão sendo incorporadas sem que ninguém pergunte por quê, para quê, para quem.
É necessário dizer “não”, principalmente quando nos sentimos usurpados em nossa identidade. Não precisamos de novas leis – elas já existem. E precisamos que sejam cumpridas.
Nunca é demais lembrar que, a partir de 2011, com a criação do IPHAC – Instituto do Patrimônio Histórico, Ambiental, Artístico e Cultural de Campos do Jordão –, muito em virtude do grande trabalho realizado pelo professor Izaltino Cândido, então responsável pelo órgão, importantes ações de tombamento e registro foram implementadas no município, que redundaram em atos administrativos de preservação e salvaguarda de grande parte do acervo. Esse trabalho teve continuidade nos anos seguintes, aumentando de três para doze os objetos tombados, e foi muito importante. Precisa seguir, com novas ideias e providências.
É bom lembrar também que a preservação do Patrimônio é uma das cinco diretrizes estratégicas do nosso Plano Municipal de Cultura, de caráter decenal e fundamentado por lei própria, como abordado nesta coluna há algumas semanas (O Plano Municipal de Cultura de Campos do Jordão. – Por: Benilson Toniolo) e que deve ser encarado como elemento básico na defesa da nossa identidade cultural.
Recentemente, em uma conversa, Ricardo Gonçalves sugeriu que talvez seja esta uma atribuição do Conselho Municipal de Política Cultural, que tem realizado um trabalho extraordinário na atual gestão. Discordo do amigo. O Conselho, como hoje está constituído, tem natureza ampla, multitemática, de caráter consultivo, deliberativo e fiscal, e entendo que a defesa do Patrimônio se configure em um tema relevante demais para ser misturado com outros assuntos. Carece de senso de protagonismo, valorização e merece um colegiado exclusivo.
Talvez seja este, portanto, o momento adequado para pensarmos na criação de um Conselho Municipal da Defesa do Patrimônio de Campos do Jordão, composto em sua maioria – ou em sua totalidade – por representantes da sociedade civil realmente preocupados com a defesa da nossa “jordanensidade” e inconformados com a usurpação do espaço público por iniciativas que descaracterizam e aviltam essa condição.
Há muito ainda a ser conhecido, reconhecido, trazido à tona, preservado.
Temos que pensar na preservação futura do que está armazenado nas casas das famílias Damas, Biagioni, Adão, Rabello, Cintra, Soares Pereira, Degli Esposti, Abitante, Carvalho, Paulo, Esteves, Abrantes, Wagner, Saraiva, Moysés, Gouvêa, as de origem italianas, portuguesas, japonesas, mineiras (isso só para falar de algumas), o acervo de valor incalculável de Edmundo Ferreira da Rocha…
Ou vamos empurrar com a barriga, lançando mão da velha atitude de “esperar para resolver quando for a hora”? Foi assim que a cidade viu se acabarem entidades como o Museu da Imagem e do Som, a Pinacoteca Camargo Freire, o Museu da Tuberculose. Acho que já temos alguns fracassos acumulados ao longo da História de que não podemos propriamente nos orgulhar, não é mesmo? Todos, os que ocupamos e os que não ocupamos cargos públicos, somos também responsáveis por essas perdas históricas.
Mexer com esse assunto é mexer com uma caixa de marimbondos – mas é um desafio que precisa ser enfrentado pela sociedade jordanense, até para que a integridade da nossa casa seja defendida e, suas características originais, preservadas e respeitadas.
As ferroadas inflamam e vão doer por algum tempo, mas valem a pena – a luta sempre vale a pena.
José Saramago, o célebre escritor português e – nunca é demais dizer – único lusófono a ser contemplado com o Prêmio Nobel de Literatura, registrou em sua obra, indispensável e volumosa, uma frase que pode servir de guia para o assunto: “é preciso continuar dizendo ‘não’, mesmo que seja apenas uma voz solitária no deserto” – deserto este que parece aumentar cada vez mais, e que é preciso reconhecer e combater.
Que o digam os professores Antonio Fernando e Leda Campestrin Costella.

Benilson Toniolo, professor, escritor, historiador e gestor público, atua como consultor da AME Cultura (Agência Mineira de Entretenimento) em projetos do Sebrae para efetivação de políticas públicas de Cultura em diversos municípios brasileiros. Membro de várias Academias de Letras e outras entidades, escreve artigos sobre Política, História e Cultura.


